Rodrigo Dantas, nome conhecido no ecossistema de startups brasileiro por fundar a Vindi, plataforma de pagamentos recorrentes adquirida pela Locaweb em 2021, trilha um caminho cada vez mais distinto. Após mais de duas décadas dedicadas ao mercado financeiro e ao empreendedorismo digital, Dantas tem direcionado sua energia e investimentos para o que ele chama de "economia real", um movimento que o levou a adquirir uma fazenda de café no interior paulista e a desenvolver um projeto de vinhos brasileiros de alta qualidade.

Sua trajetória começou no Itaú, onde passou mais de uma década e ajudou a construir a área de Empresas. A experiência no setor bancário, segundo ele, foi fundamental para moldar sua visão de negócios e sua resiliência. "Saí de lá com uma casca grossa, especialmente na área comercial, e levei os aprendizados para a cultura da Vindi", relata. Em 2013, Dantas fundou a Vindi, apostando no modelo de "economia da recorrência", termo que ajudou a cunhar para descrever a crescente importância de planos, assinaturas e mensalidades em diversos setores do PIB brasileiro. A empresa se tornou referência no mercado e sua venda para a Locaweb, em 2021, marcou um ponto de virada.

A transição para a economia real

Com a Vindi consolidada e vendida, Rodrigo Dantas passou a atuar como investidor-anjo e conselheiro de diversos fundos e empresas, como Malga, Crescera Capital e Criatec 4. No entanto, a saturação do ambiente digital e a busca por novas narrativas o impulsionaram a olhar para setores mais tangíveis. "Eu conhecia muitos empreendedores digitais e de tecnologia e, depois de 20 anos me relacionando com esse perfil, comecei a ficar um pouco estafado", confessa. "O e-commerce e o digital aparecem muito na mídia, mas quem constrói o Brasil está no meio da rua." Essa percepção o levou a investir em ativos mais concretos e em negócios que sustentam a economia do país.

Um marco dessa transição foi a aquisição, em 2023, de uma fazenda de café desativada em Espírito Santo do Pinhal (SP). Dantas descreve o projeto como um "laboratório": transformar um negócio parado em um mercado desconhecido em uma operação produtiva. O objetivo é não apenas torná-la rentável, mas também uma "grande pagadora de dividendos". Paralelamente, a região revelou a ele o potencial dos vinhos brasileiros de alta qualidade. Em parceria com a vinícola L’Origine, ele testou uma marca própria, cujas primeiras 100 garrafas foram vendidas em apenas oito horas, demonstrando o apetite do mercado por rótulos nacionais diferenciados.

Novos projetos e a visão sobre o futuro

Os projetos na economia real inspiraram a produção de um documentário sobre empreendedorismo fora do ambiente digital. Dantas busca dar voz a histórias de negócios que, embora em menor escala, são vitais para o desenvolvimento do Brasil. "Existem muitos casos interessantes de negócios que movimentam o Brasil em menor escala, com menos impacto individual, mas que também são importantes para o país", afirma.

A experiência com vinhos, em particular, expôs um desafio significativo: a questão tributária. Vinhos importados, como os argentinos e chilenos, chegam ao Brasil com impostos mais baixos, tornando os rótulos nacionais mais caros para o consumidor. Dantas vê uma oportunidade em criar uma marca que explore a exclusividade e a descoberta de novos produtores brasileiros, conectando regiões como o Sul e o interior de São Paulo a consumidores em grandes centros urbanos. "A proposta tem muito a ver com exclusividade e descoberta", explica.

A rotina e os rumos da inovação

Rodrigo Dantas adota um ritmo de trabalho diferente do passado, com foco em mais liberdade e equilíbrio. "Confesso que sou desorganizado, de verdade. Não tenho uma rotina em que, todos os dias, às sete horas, faço determinada coisa", diz. Ele dedica mais tempo à saúde e à família, atuando como conselheiro de forma mais consultiva. "Hoje consigo decidir como serão minhas semanas e meus dias."

Sobre o mercado de inovação no Brasil, Dantas demonstra cautela. Ele critica a adoção prematura de IA em setores como o jurídico, que pode levar a demissões sem uma análise profunda das mudanças na mão de obra. "Não acredito muito nisso, mas haverá sim uma mudança na mão de obra", pondera. Para ele, o foco deve estar nos problemas reais do país: segurança, infraestrutura, saúde e educação, áreas onde a inovação pode gerar impacto social significativo. "Precisamos olhar para os problemas reais, como segurança, infraestrutura, saúde e educação", defende.

O valor do jornalismo autêntico

Em relação à mídia especializada, Dantas expressa preocupação com o impacto da IA na produção de conteúdo. Ele teme que a profundidade e a qualidade jornalística se percam, com textos superficiais e erros frequentes. "Tenho medo de que jornalistas que dedicam tempo a conversar e fazer as perguntas certas se tornem cada vez mais raros", lamenta. Ele compara a situação à da marcenaria: a industrialização trouxe móveis planejados, mas o profissional autônomo e artesanal se tornou mais valorizado. "Acho que o jornalismo vai passar por algo parecido: as pessoas vão valorizar o profissional sobre quem possam dizer ‘esse cara faz entrevista de verdade, não está amparado só na inteligência artificial’."

Dantas não descarta um novo empreendimento em tecnologia, mas, por enquanto, prefere focar em projetos pessoais, como o de vinhos, e em sua atuação como conselheiro, onde identifica oportunidades. "Por enquanto, ainda não surgiu nenhuma em que eu esteja disposto a mergulhar de cabeça."

Com reportagem de Brazil Valley

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