A Praça dos Três Poderes foi desenhada para projetar equilíbrio e solidez institucional. No centro desse arranjo, o Supremo Tribunal Federal deveria ser o guardião silencioso da liturgia, o ponto de estabilidade em meio às tempestades políticas. A crise aberta pelo embate público entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, no entanto, transformou o guardião no epicentro do abalo. E a resposta do presidente da Corte, Edson Fachin, foi recorrer ao mais fundamental dos instrumentos do Judiciário: o tempo processual.
Ao unificar os relatórios da Polícia Federal que envolvem os dois ministros e abrir prazos formais para manifestações, Fachin optou por um caminho deliberadamente lento. Não se trata de inércia, mas de uma aposta na burocracia como agente de descompressão. As determinações de cinco dias úteis para um parecer, seguidos de outros cinco para a manifestação seguinte, empurram qualquer análise de mérito para o final de setembro, a poucos dias do primeiro turno das eleições. A mensagem é clara: a gravidade dos fatos não autoriza atalhos, como afirmou o próprio presidente do STF.
O cálculo do tempo
A estratégia de Fachin, no entanto, embute um risco calculado. Ao deixar a crise se desenrolar em fogo baixo durante o clímax do calendário eleitoral, a Corte permanece sob os holofotes, alimentando narrativas e especulações. O despacho do presidente do STF ressalta que as medidas visam a instrução dos casos, “sem antecipação de juízo”. É a aplicação do devido processo legal em sua forma mais pura. A questão é se a pureza do rito é compatível com a urgência da política.
Enquanto a Procuradoria-Geral da República, Moraes e Mendonça preparam suas respostas, o país assiste a uma instituição que julga a si mesma em praça pública. Fachin prometeu que “não haverá precipitação, tampouco omissão”. A resposta institucional será “firme, proporcional e rigorosa”. A aposta é que, ao seguir o manual, a instituição demonstre sua força e resiliência, reafirmando que “nenhuma autoridade está acima da Constituição”.
O dilema que fica no ar é se o tempo da Justiça, com seus ritos e prazos, conseguirá pacificar a crise ou se, ao se estender, apenas a aprofundará em um momento já conflagrado da vida nacional. A balança da Justiça, por ora, pesa o próprio tempo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





