O Baltimore Museum of Art (BMA) anunciou a incorporação de 118 novas obras ao seu acervo nos últimos seis meses. O lote, que inclui compras, doações e presentes prometidos, abrange diferentes períodos, culturas e mídias, numa movimentação que sinaliza um esforço consciente de expansão e aprofundamento da coleção.

Mais do que uma simples ampliação quantitativa, as aquisições materializam a tese curatorial da instituição, que, segundo a diretora Asma Naeem, foca em diversificar o escopo do acervo, fortalecer laços com colaboradores e impulsionar a comunidade artística de Baltimore. A presença de uma obra sobre papel da modernista brasileira Tarsila do Amaral entre os novos nomes é um indicativo claro dessa ambição global.

A estratégia por trás dos nomes

A aquisição mais vultosa veio de uma única fonte: Constance R. Caplan, ex-presidente do conselho do museu, doou 64 trabalhos de sua coleção pessoal. A lista inclui peças de artistas de peso no circuito internacional, como os fotógrafos alemães Bernd e Hilla Becher, o sul-coreano Lee Ufan e a artista conceitual brasileira Fernanda Gomes, reforçando a conexão do museu com a produção artística do Brasil.

O gesto de Caplan, que tem mais de 50 anos de envolvimento com o BMA, não é isolado. Ele se alinha à visão da diretora Asma Naeem de que o crescimento do museu depende de "relacionamentos profundos com colaboradores privados e públicos". A doação funciona como um endosso de peso a essa estratégia, trazendo para a coleção pública obras que antes estavam em uma coleção privada de prestígio.

Do modernismo brasileiro à cena local

O conjunto de novas obras revela uma curadoria que opera em múltiplas frentes. Ao lado de um trabalho de Tarsila do Amaral, o museu adquiriu pinturas do equatoriano Oswaldo Guayasamín e da americana Amy Sherald, conhecida por seu retrato oficial de Michelle Obama. São escolhas que posicionam o BMA no diálogo sobre a reavaliação dos cânones da história da arte.

Ao mesmo tempo, a instituição cumpre a promessa de olhar para dentro. A inclusão de trabalhos de artistas da cena de Baltimore, como as instalações e obras de mídia mista de Sanaa Gateja e Reverend Joyce McDonald, demonstra um compromisso com o ecossistema local. Essa dupla articulação — global e local — é o que define a identidade que o museu parece buscar.

O movimento do BMA, portanto, pode ser lido como um microcosmo de uma tendência maior no mundo institucional da arte: a busca por construir coleções mais representativas da produção artística global e contemporânea. Não se trata apenas de preencher lacunas, mas de participar ativamente da reescrita de narrativas históricas, tornando-as mais complexas e conectadas com o presente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews