O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos interveio para acalmar um mercado de títulos públicos sob forte estresse. Na última quarta-feira, a instituição anunciou que vai dobrar o volume de recompra de seus títulos de longo prazo, com vencimentos entre 10 e 30 anos. A decisão veio um dia após os rendimentos dos papéis de 30 anos atingirem o maior nível desde 2007, um sinal de alerta para o custo da dívida da maior economia do mundo.

A medida trouxe um alívio imediato, com uma leve queda nos juros futuros. Contudo, a leitura do mercado, segundo analistas, é que se trata de um movimento tático para um problema estratégico. A desconfiança reside no fato de que a intervenção não endereça as causas da recente onda de vendas: a preocupação crescente com a trajetória fiscal dos EUA e a inflação persistente.

Um gesto estéril?

A avaliação predominante entre especialistas é que a iniciativa do Tesouro não altera a tendência de fundo. Leonardo Matos, analista da StoneX, classificou a decisão como um "movimento estéril", incapaz de resolver as questões que pressionam as taxas de juros, conforme reportado pelo Money Times. O problema central, segundo ele, é a falta de apetite do governo americano por uma consolidação fiscal, em um cenário de déficits elevados e contínuos. O marco simbólico dessa crise foi cruzado na mesma semana: a dívida pública dos EUA ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões.

Essa percepção é compartilhada por Padhraic Garvey, do ING, que notou o timing reativo da medida. Para ele, o anúncio fora do cronograma habitual sugere uma tentativa de "acalmar os nervos do mercado" em vez de uma ação de política estrutural. A mensagem que fica é que o Tesouro está atento e disposto a agir, mas a ação em si pode ser insuficiente para conter a pressão sobre os juros de longo prazo.

O risco do tiro pela culatra

Uma visão ainda mais crítica vem de Peter Schiff, economista conhecido por antever a crise de 2008. Ele argumenta que a recompra pode, paradoxalmente, agravar o problema. Ao trocar dívida antiga por novas emissões em condições piores, o Tesouro estaria acelerando o crescimento do endividamento. Na visão de Schiff, o dinheiro para financiar a operação virá, em última instância, de mais emissão monetária pelo Federal Reserve, o que alimentaria a inflação e enfraqueceria o dólar — criando um ciclo vicioso.

Essa dinâmica colocaria o Fed em uma posição delicada: pressionado economicamente a subir os juros para conter a inflação de um lado, e politicamente a cortá-los para aliviar o custo da dívida do outro. A reação inicial do mercado parece refletir essa ambiguidade. Os juros longos cederam marginalmente e o dólar perdeu força globalmente, mas a questão fundamental sobre a sustentabilidade fiscal americana segue em aberto, deixando a trajetória futura dos juros em um campo de incertezas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times