Cinco semanas após o início de seu segundo mandato, o presidente Donald J. Trump emitiu a Ordem Executiva 14253, intitulada “Restaurando a Verdade e a Sanidade à História Americana”. O decreto afirma que, há mais de uma década, existe um esforço concertado para substituir fatos objetivos por uma narrativa distorcida por ideologias. Sob essa premissa, o governo aponta instituições federais, como o Smithsonian e o Serviço Nacional de Parques, como responsáveis por retratar valores americanos como inerentemente opressivos. A medida instrui um grupo de aliados, incluindo o vice-presidente J. D. Vance e o secretário do Interior, Doug Burgum, a realizar uma revisão completa dessas entidades, sinalizando uma tentativa de controle estatal sobre a interpretação do passado nacional.

O movimento não é apenas retórico; ele carrega implicações profundas para a estrutura institucional dos Estados Unidos. Ao buscar “reinstaurar” monumentos removidos — uma referência implícita a figuras confederadas — o governo Trump utiliza a história como campo de batalha político. A leitura aqui é que o objetivo central transcende a disputa cultural sobre o que é ou não “woke”. O que está em jogo é a expansão do poder presidencial através da subjugação de instituições historicamente autônomas, como os Arquivos Nacionais, garantindo que o Executivo controle não apenas a narrativa do passado, mas também os registros que servirão de base para o julgamento de futuras gerações sobre a atual administração.

O projeto de uma nova historiografia oficial

A reação de associações profissionais de historiadores foi imediata, alertando para o risco de uma narrativa higienizada que minimiza elementos como a escravidão e a discriminação sistêmica. A administração Trump parece pretender suprimir a produção historiográfica das últimas seis décadas, que foi fortemente influenciada pelo movimento pelos direitos civis, em favor de uma visão restauracionista e glorificada do pré-1960. Esse revisionismo não é aleatório; ele é parte integrante da visão que Trump possui de si mesmo como o ápice da história americana.

Essa autoimagem é materializada no chamado “Caminho da Fama Presidencial”, uma série de placas de bronze instaladas na Casa Branca. A disposição dos textos, que destina mais espaço ao primeiro ano do segundo mandato de Trump do que a mandatos inteiros de figuras como Abraham Lincoln ou Franklin D. Roosevelt, revela a necessidade de branding egocêntrico. Ao conectar Trump inevitavelmente a seus predecessores, o governo tenta construir uma linhagem que valida sua autoridade como o telos da nação.

O mecanismo do controle simbólico

O uso de símbolos e moedas para consolidar o poder é uma tática clássica de regimes que buscam a perenidade. A tentativa de Trump de estampar sua imagem em moedas comemorativas de ouro, contornando a Emenda Thayer — que proíbe o rosto de pessoas vivas em moedas americanas —, ilustra a disposição do governo em explorar brechas legais para fins de autopromoção. A argumentação do Departamento do Tesouro, sob Scott Bessent, de que o secretário teria autoridade para adotar novos designs, ignora deliberadamente a proibição legal estabelecida no século XIX para impedir abusos de poder por burocratas como Spencer M. Clark.

Além das moedas, o projeto de construção de um arco triunfal na Virgínia, desenhado para dominar o horizonte da capital e ofuscar o Memorial Lincoln, demonstra o desejo de monumentalidade. Embora o design seja apresentado como uma homenagem à Declaração de Independência, a escala desproporcional e os detalhes em ouro rococo revelam a natureza do projeto: um monumento ao próprio Trump. A nomeação de Vince Haley, um lealista do círculo interno, para supervisionar essas obras, garante que a estética e a mensagem permaneçam alinhadas à agenda da Casa Branca.

Implicações para o ecossistema democrático

A subordinação de instituições culturais e a transformação de espaços públicos em palcos de propaganda política criam um precedente perigoso. Quando o Estado passa a ditar quais figuras históricas devem ser honradas e quais devem ser repudiadas, a autonomia da pesquisa acadêmica e da memória coletiva é corroída. Para os reguladores e o público, o desafio reside em como preservar a integridade das instituições públicas frente a um Executivo que vê a história como uma extensão de sua marca pessoal.

No Brasil, onde o debate sobre a memória histórica e a ocupação de espaços públicos também é frequentemente tensionado por agendas ideológicas, o caso americano serve como um alerta sobre a fragilidade das instituições semi-autônomas. A instrumentalização da história não é apenas uma disputa acadêmica; é uma ferramenta de poder que, uma vez consolidada, dificulta a reversão de narrativas oficiais e limita o pluralismo necessário para o funcionamento de uma sociedade democrática saudável.

Perguntas em aberto e o futuro da memória

Resta saber até que ponto o sistema jurídico americano, particularmente os tribunais federais, conseguirá conter a expansão desse poder Executivo sobre o patrimônio e a história nacional. A eficácia da resistência institucional depende da capacidade de manter a independência de órgãos como o Smithsonian frente às pressões orçamentárias e administrativas impostas pela atual gestão.

O que observar daqui para frente é o impacto dessas mudanças na educação e na percepção pública do passado. A transformação da Casa Branca em um museu de si mesma pode ter um efeito duradouro na forma como os eleitores percebem a legitimidade presidencial, independentemente das realidades econômicas ou sociais que a administração venha a enfrentar.

A tentativa de controlar o passado é, invariavelmente, uma forma de tentar prender o futuro. Enquanto o governo Trump investe na construção de arcos e na fundição de moedas, a história real, multifacetada e frequentemente desconfortável, continua a existir fora dos muros da Casa Branca, aguardando o momento em que a narrativa oficial se choque com a realidade dos fatos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Liberties Journal