O mercado imobiliário, frequentemente analisado sob a ótica de localização, infraestrutura e tendências econômicas, pode ser surpreendentemente influenciado por fatores tão intrínsecos à experiência humana quanto a própria vida e a morte. Em diferentes cantos do globo, práticas e estigmas associados a esses eventos existenciais moldam o valor de propriedades de maneiras pouco convencionais.
Na Europa, especialmente na França, um modelo de transação imobiliária conhecido como "viager" permite que proprietários, majoritariamente idosos, convertam seu patrimônio em uma fonte de renda sem precisar deixar suas casas. Neste tipo de contrato, o vendedor negocia a venda de seu imóvel recebendo não apenas um valor inicial (o "bouquet"), mas também pagamentos periódicos que se estendem por toda a sua vida. A modalidade mais comum, o "viager occupé", garante ao vendedor o direito de residir na propriedade até o fim de seus dias. O comprador, por sua vez, assume a propriedade, mas só poderá usufruí-la plenamente após o falecimento do vendedor. Uma variante, o "viager libre", permite que o comprador ocupe o imóvel imediatamente. Imóveis negociados sob o "viager" podem apresentar descontos significativos em relação ao valor de mercado, que variam conforme a idade e a expectativa de vida do vendedor, o valor do "bouquet" e o direito de ocupação. Para o comprador, o principal risco reside na incerteza da duração dos pagamentos: se o vendedor viver mais do que o previsto, o custo acumulado pode exceder o valor de mercado; se falecer precocemente, o comprador pode ter feito um investimento aquém do potencial. A legislação francesa reconhece e regulamenta o "viager", exigindo formalização notarial para garantir a segurança de ambas as partes.
Em contraste com a abordagem francesa, que capitaliza a longevidade, o mercado imobiliário de Hong Kong lida com o impacto negativo da morte, especialmente quando esta ocorre de forma não natural. Apartamentos que foram palco de homicídios ou suicídios podem sofrer desvalorizações drásticas, chegando a cair pela metade de seu valor de mercado, segundo relatos de agentes imobiliários locais. Mesmo os aluguéis dessas unidades tendem a ser cerca de 20% inferiores à média. Pesquisas acadêmicas que analisaram transações imobiliárias na cidade entre 2001 e 2015 indicam uma desvalorização média de 25% para imóveis diretamente associados a mortes violentas ou trágicas. O estigma se estende a unidades vizinhas: apartamentos no mesmo andar podem perder cerca de 4,5% de seu valor, enquanto unidades em outros andares do mesmo edifício sofrem desvalorizações menores, em torno de 2,6%. O impacto, no entanto, não é eterno. Os preços tendem a se recuperar gradualmente após quatro a cinco anos do evento, sugerindo que o estigma, embora potente, pode diminuir com o tempo, cedendo lugar a outros fatores de valorização.
Esses exemplos, vindos de Paris e Hong Kong, ilustram como a vida e a morte, em suas manifestações mais diversas, podem se tornar variáveis financeiras inesperadas no mercado imobiliário. Seja através de mecanismos contratuais que capitalizam a expectativa de vida, seja pelo peso do estigma social associado a eventos trágicos, a compreensão desses fatores oferece uma perspectiva mais profunda sobre a complexidade da precificação de imóveis em escala global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





