Uma investigação da WWF, intitulada “Aquí se roba agua”, aponta que mais de 80.000 hectares de cultivo em seis importantes acuíferos espanhóis são irrigados com água extraída sob "claros indícios de ilegalidade". O estudo, que levou um ano e meio para ser concluído e utiliza dados oficiais de 2023 e 2024, foca em áreas como o Alto Guadiana, Almonte-Marismas (que alimenta Doñana), Los Arenales, Baza, Campo de Cartagena (próximo ao Mar Menor) e uma zona no sudeste que abrange Albacete, Alicante e Almería.
O padrão observado nessas regiões é a transição de um uso tradicional da terra para uma agricultura industrializada e superintensiva, que demanda grandes volumes de água. Teresa Gil, responsável pelo programa de água da WWF, descreve a situação como um "delito ambiental estendido e impune". O acuífero da Mancha Ocidental, que deveria abastecer as Tablas de Daimiel, é o epicentro, com mais de 39.000 hectares regados ilegalmente, totalizando cerca de 69 hectômetros cúbicos por ano. A sobreexplotação real é ainda maior, chegando a 86% acima do permitido pelo Plano Hidrológico do Guadiana.
Riscos ambientais e falhas na fiscalização
O impacto dessa extração ilegal é severo. No caso do acuífero Almonte-Marismas, a WWF estima 3.300 hectares irrigados irregularmente e 13,34 hm³ extraídos ilegalmente, apesar de uma redução recente. A situação de Doñana levou a UNESCO a alertar que o local pode entrar na Lista de Patrimônio Mundial em Perigo se o deterioramento do acuífero não for revertido. Mesmo com o fechamento de 1.214 poços desde 2019, a pressão sobre os recursos hídricos persiste.
Um caso emblemático é o sobreseimento dos poços da Casa de Alba, em Aznalcázar (Sevilha), após a legalização dos poços pela Confederação Hidrográfica do Guadalquivir, apesar do recurso dos Ecologistas en Acción. Há precedentes, como a condenação dos irmãos Campos Peña por roubar água de Doñana, embora a pena tenha sido reduzida. Esses casos evidenciam a complexidade da aplicação da lei e a dificuldade em responsabilizar os infratores, especialmente diante de interesses econômicos ligados à agricultura de exportação.
Diferentes cenários regionais
Em contraste com a situação crítica em algumas áreas, o Mar Menor apresenta um cenário mais positivo. A superfície com indícios de irrigação ilegal no Campo de Cartagena caiu de 11.000 hectares em 2019 para 3.271 em 2024, uma redução de 65%. Isso é atribuído à combinação da Lei do Mar Menor de 2020 e outras medidas de controle. Essa melhora regional contrasta com a persistência do problema em outros acuíferos, onde a agricultura superintensiva, como o cultivo de olival, continua a pressionar os recursos hídricos.
A complexidade da gestão hídrica
A gestão da água na Espanha é um desafio complexo, agravado pela expansão da agricultura intensiva e pela pressão sobre recursos hídricos já escassos. A investigação da WWF lança luz sobre a dimensão do problema e a necessidade de mecanismos de fiscalização e punição mais eficazes para garantir a sustentabilidade dos acuíferos e a proteção de ecossistemas vitais como Doñana.
A falta de controle efetivo e a lentidão do sistema judicial em lidar com crimes ambientais relacionados à água criam um ambiente de impunidade que incentiva a continuidade das práticas ilegais. A situação exige uma resposta coordenada entre órgãos ambientais, autoridades hidrográficas e o poder judiciário para reverter a tendência de degradação dos recursos hídricos subterrâneos.
Perguntas em aberto sobre o futuro
O estudo da WWF levanta questões cruciais sobre a capacidade da Espanha de proteger seus recursos hídricos subterrâneos a longo prazo. A sustentabilidade da agricultura superintensiva em regiões com escassez hídrica é um ponto central. Será que as medidas atuais são suficientes para conter a extração ilegal e reverter a sobreexplotação dos acuíferos?
A resposta a essas perguntas definirá o futuro de ecossistemas sensíveis e a disponibilidade de água para usos múltiplos. A pressão por água continuará a ser um fator crítico, especialmente com as mudanças climáticas, exigindo soluções inovadoras e um compromisso firme com a gestão responsável dos recursos hídricos.
O cenário atual na Espanha demonstra que a luta pela água subterrânea é uma batalha contínua, onde a legislação e a fiscalização precisam evoluir para acompanhar a crescente demanda e os impactos ambientais. A extração ilegal, como aponta o estudo, é um sintoma de um problema mais profundo de governança e fiscalização.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





