No campo de Nanjing, longe das luzes das metrópoles, o poeta Ye Hui cultiva uma rotina que beira o ascetismo. Ele não escreve por impulso cotidiano, mas em períodos de clausura que duram até dez dias, fechando as cortinas de seu pequeno escritório para que o tempo, em sua passagem incessante, não o distraia de seu ofício. É nesse isolamento que o autor de 'The Ruins', prestes a ser publicado pela Deep Vellum, busca o que chama de 'meditação', permitindo que linhas e imagens emerjam de um silêncio profundo. A escrita para Ye Hui não é um ato de registro, mas uma tentativa de capturar fragmentos de uma realidade que, segundo ele, a escrita só consegue tangenciar parcialmente.

A tradução como espelho da imaginação

A relação de Ye Hui com a tradução é, paradoxalmente, um dos motores de sua própria criatividade. Ao observar seus poemas sendo transpostos para o inglês por Dong Li, o poeta nota discrepâncias que, longe de o frustrarem, despertam sua imaginação. Ele relata que, ao ver amigos tentarem reverter essas traduções de volta ao chinês, descobriu camadas de significado que haviam passado despercebidas em sua própria língua original. Essa 'falha' inerente ao processo de tradução torna-se, para ele, uma ferramenta de revelação.

Para o poeta, a poesia é uma arte da incompletude. Ele admite que, na juventude, acreditava na onipotência das palavras, na ideia de que a linguagem poderia traduzir a totalidade da experiência humana. Com o passar das décadas, essa convicção deu lugar a uma compreensão mais humilde: existem aspectos do mundo poético que permanecem refratários à linguagem. Escrever, portanto, torna-se um exercício de contínua aproximação, um projeto de vida onde o poeta adiciona camadas a um único poema que nunca termina de ser escrito.

Arquitetura, tempo e o olhar metafísico

A formação de Ye Hui na arquitetura não é um detalhe biográfico acessório, mas a espinha dorsal de sua visão de mundo. Ele explora a relação entre as pessoas e os espaços que habitam, interessado em como a arquitetura detém os vestígios do passado e molda a vida emocional de quem a ocupa. Essa perspectiva histórica permite ao poeta suspender o tempo, criando um espaço mental onde elementos díspares — pessoas, estruturas e a terra — respondem uns aos outros em uma coreografia silenciosa.

Essa sensibilidade espacial se reflete em sua forma de compor. Ye Hui descreve o 'veículo' de sua imaginação como um desvio constante, nunca mirando diretamente no alvo. Ele se vê em diálogo com o 'I Ching', o Livro das Mutações, que o ensinou que o tempo não é uma linha concreta e que a alteração de um único elemento pode colapsar ou reconstruir todo o conjunto. A poesia, nesse contexto, é um mapa de conexões sutis entre o indivíduo e o cosmos, uma tentativa de entender o que nos une ao mundo de forma invisível.

O peso do cotidiano e o sagrado das coisas

O poeta dedica atenção especial às 'coisas feridas', uma inclinação que remonta a uma infância marcada pela escassez de companhia, onde o mundo ao redor ganhava uma nitidez quase dolorosa. Esse foco no fragmentado, no que está à margem, manifesta-se em poemas como 'The Witch', onde ele explora a figura da curandeira folclórica que, com objetos cotidianos, evoca o mágico. Ye Hui vê o poeta como uma figura similar: alguém que utiliza a matéria bruta do dia a dia para convocar algo que transcende a própria existência humana.

Essa visão metafísica, no entanto, é mantida com uma vigilância constante contra ideologias. Embora o surrealismo tenha feito parte de sua formação, o poeta prefere se manter atento às possibilidades da realidade. Ele cita a música como a forma de arte que mais se aproxima de sua escrita, descrevendo-a como um som que emana do mundo sem o toque humano, um vazio que penetra a consciência e, por vezes, exaure quem o ouve.

A busca por um catálogo do existir

Recentemente, Ye Hui tem se voltado para um projeto intitulado 'Catalogue', onde busca organizar seus poemas dentro de uma estrutura que lhes confira uma linguagem própria. Ele questiona se a própria existência humana não estaria contida em um catálogo análogo, uma ideia que reflete seu interesse em sistemas, ordens e a desordem que os habita. O poeta continua a observar o mundo através de suas janelas fechadas, esperando que a próxima linha surja não do esforço, mas do alívio de um desprendimento.

O que resta, após a conclusão de um poema, é a sensação de que a escrita finalmente o abandonou, deixando para trás uma forma que agora possui vida própria. Ye Hui não busca a perfeição, mas a ressonância de algo que, embora tenha nascido de sua mente, parece ter vindo de um lugar muito mais antigo. O poeta, em seu silêncio, segue mapeando esses vestígios, enquanto o mundo lá fora, com seus ruídos e pressas, continua a girar em torno de suas próprias incertezas.

Com reportagem de Brazil Valley

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