O ar no estúdio de Zohra Opoku, em Accra, carrega mais do que o cheiro de pigmentos e o toque áspero de tecidos crus. Quando a curadora Beata America, do Zeitz Museum of Contemporary Art Africa, cruzou as portas desse espaço em 2023, ela não encontrou apenas uma artista em trabalho; encontrou um arquivo vivo. A visita, que começou como uma pesquisa de rotina, transformou-se no catalisador para a primeira grande retrospectiva da carreira de Opoku, uma mostra que agora ocupa os corredores do prestigiado museu sul-africano sob o título "We Proceed in the Footsteps of the Sunlight". O nome, extraído do Livro dos Mortos egípcio, sugere a natureza da obra de Opoku: uma jornada que atravessa a fronteira entre o tangível e o espiritual.

O encontro entre o ancestral e o contemporâneo

Nascida em 1976 na Alemanha Oriental, filha de uma mãe alemã e de um pai que era um líder tradicional ganense, Opoku sempre habitou o espaço entre dois mundos. Sua mudança para Gana, anos depois, não foi apenas uma migração geográfica, mas uma reconciliação com uma linhagem que ela buscou compreender através da lente da arte. Ela descreve essa transição como um processo de ancoragem, onde a pesquisa acadêmica — muitas vezes feita em bibliotecas esquecidas da Universidade de Gana — se mistura com a tradição oral. Ao explorar o conceito Akan de "Sassa", a artista não apenas documenta rituais, mas tenta materializar presenças que, embora invisíveis, moldam a estrutura social e emocional das comunidades que ela retrata.

A técnica como narrativa contínua

Opoku é frequentemente definida por sua habilidade de transitar entre meios, mas é no têxtil que sua voz encontra maior ressonância. Desde a infância, observando lençóis secando ao vento no jardim de sua família, ela percebeu que o tecido possuía uma vida própria, uma capacidade de se tornar escultura antes de ser novamente domesticado pelo ferro de passar. Hoje, ela imprime fotografias em tecidos naturais pré-tingidos, bordando sobre a imagem e criando colagens que desafiam a bidimensionalidade. Essa prática, que sua galerista Mariane Ibrahim descreve como a de uma "contadora de histórias tecida", transforma fragmentos de memória em uma tapeçaria contínua, onde o pessoal se torna universal.

O peso do legado institucional

A exposição no Zeitz MOCAA carrega um simbolismo adicional ao ocupar um espaço moldado pela visão de Koyo Kouoh, a diretora que é uma figura central na trajetória de muitos artistas africanos contemporâneos. Para Opoku, estar ali é um exercício de surrealismo; é como observar a própria vida a partir de um ponto de vista externo, reconhecendo que seu trabalho agora faz parte de uma linhagem maior de pensamento artístico africano. A curadoria de Beata America e Phokeng Setai foca justamente nessa evolução de uma década, observando como a escala e a ambição das obras de Opoku se expandiram, mantendo sempre a intimidade de quem costura, literalmente, sua própria história.

Perguntas que permanecem no tecido

O que acontece com o conhecimento quando ele não é registrado? Essa é a pergunta que ecoa nas entrelinhas das obras de Opoku, especialmente em suas séries focadas nas figuras das "Queen Mothers". Ao tentar capturar o espírito e a vivacidade dessas matriarcas através de danças tradicionais como o Adowa, a artista confronta a efemeridade da tradição oral. O futuro de sua prática parece apontar para uma investigação ainda mais profunda sobre o que decidimos preservar e o que permitimos que o tempo dissipe, deixando para o espectador a tarefa de ler os detalhes bordados em cada peça.

Enquanto a mostra permanece aberta ao público, o trabalho de Opoku convida a uma pausa necessária. Ao olhar para as texturas que compõem sua obra, somos lembrados de que a identidade não é um dado fixo, mas algo que se reconstrói com cada ponto e cada imagem sobreposta. A questão que fica é se, ao final desta jornada, conseguiremos enxergar os fios que sustentam nossa própria existência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews