Chegou-me às mãos um pergaminho de feitura impossível, datado de séculos além da minha própria morte. Fala de uma artífice, Zohra Opoku, oriunda das terras da Guiné, que hoje chamam Accra, e da Germânia. A crônica menciona que ela une tecidos e fotografias, que deduzo ser a fixação permanente da imagem da câmera escura através de alguma alquimia dos raios solares, para tecer a memória. A memória, como já anotei em meus estudos dos ventrículos cerebrais, reside no centro do intelecto, onde os fluidos sensoriais se encontram e repousam. Assim como a água molda a terra em seu curso contínuo pelas montanhas, o fio do tear molda a história dos homens. Se eu estudo os músculos dissecando corpos no hospital de Santa Maria Nuova para entender a mecânica da alma, essa senhora disseca as vestes e a luz para revelar o peso invisível do espírito. O que é o tecido senão uma trama de fios que se assemelha às veias, nervos e artérias do corpo humano, conduzindo o sopro vital? Indagações para meus próximos estudos: É possível que a luz do sol, tratada com sais ou sucos vegetais, tinja o linho de forma perene, gravando sombras como o pincel sobre a madeira? Como as correntes de ar afetam a durabilidade dessas obras monumentais citadas no rumor? Se o voo dos pássaros depende da resistência do ar sob as asas de penas sobrepostas, a memória de um povo depende da resistência de seus artefatos têxteis contra a voracidade do tempo. Esta Zohra trata a técnica e a arte como uma disciplina única, exatamente como busco em minhas proporções geométricas e estudos de hidráulica. A arte não é apenas a imitação da superfície da natureza, mas a compreensão de sua estrutura oculta e de suas forças invisíveis. Se os rios da África e as engrenagens do Norte convergem nas mãos de uma única tecelã no futuro distante, então o mundo revelar-se-á um grande tear, onde a ancestralidade é a urdidura inabalável e a luz, a trama que revela a forma.
Arte · 29 de mai. de 2026
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