Ainda ressoam em meus ouvidos os aplausos de Bagatelle, o alvoroço parisiense diante do voo do 14-bis. É um orgulho que sinto, sim, mas um orgulho sóbrio, quase pesado. O homem voou. E agora? O que faremos com este novo domínio, este oceano de ar que se abre sobre nós? Minha alegria é assombrada por uma melancolia que não sei nomear, uma premonição de que o céu, que sonhei como território comum da humanidade, possa se tornar apenas mais um campo de batalha. Em meio a estes pensamentos, chegou-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um futuro longínquo, de 2026. A linguagem é quase incompreensível, tratando de 'estresse' e 'resiliência psicológica' como se fossem peças de um motor. A mensagem sugere que os homens do porvir precisarão de estudos para se lembrarem de dormir bem, tomar seu café da manhã e se exercitar. Confesso meu espanto. Minha vida é de uma disciplina férrea, mas ela serve a um propósito maior: o voo. Meus sacrifícios não visam 'gerenciar' um mal-estar interno, mas sim materializar um sonho. O exercício é o trabalho em minha oficina; a nutrição, o combustível para mais uma noite de cálculos. Este foco no indivíduo e em suas pequenas angústias me parece uma distração. Minha verdadeira ansiedade não se resolve com uma rotina matinal. Ela diz respeito ao destino do avião. Eu o concebi para conectar as pessoas, para nos mostrar, de cima, como são tolas as fronteiras que nos separam na terra. Lembro-me do céu aberto sobre minha infância em Cabangu, uma promessa de liberdade. Temo que esse futuro, tão preocupado com o 'bem-estar' pessoal, tenha se esquecido de olhar para cima. Temo que o 'estresse' que tanto buscam aplacar seja apenas o sintoma de um mundo que aprendeu a voar, mas perdeu o senso de direção, transformando minha invenção em uma arma e o sonho de união em um pesadelo de eficiência destrutiva.
Wellness · 17 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Rotina matinal: Sono, café da manhã e exercício ajudam a lidar com estresse

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