O ar de Paris ainda me parece vibrar com o ruído do motor Antoinette e com o aplauso da multidão em Bagatelle. Há poucas semanas, mostrei ao mundo que o homem pode, por seus próprios meios, elevar-se aos céus. Foi um momento de comunhão, uma vitória não minha, mas da humanidade. Eu sonhava, e ainda sonho, com um céu sem fronteiras, um vasto oceano azul sobre o qual todos pudessem navegar em liberdade, aproximando povos e diluindo as linhas que os homens traçam na terra. Por isso, ofereci os planos de meus balões e de meu 'mais-pesado-que-o-ar' a quem quisesse vê-los. O conhecimento deve ser como o ar: livre. Recebo agora, por vias que não compreendo, um despacho de um futuro distante, de um tal ano de 2026. As palavras são estranhas: OpenAI, Apple, iCloud. Discutem sobre 'segredos comerciais' e o 'roubo' de ideias por um engenheiro. Parece-me uma disputa de uma mesquinhez atordoante. Que tipo de invenção é esta, uma 'inteligência artificial', que nasce já envolta em segredos e processos judiciais? Brigam para possuir o que não se pode tocar, para trancar em cofres o que deveria iluminar a todos. O que é uma 'nuvem' que pode ser propriedade de alguém? Esta notícia, vinda de um tempo que não é o meu, lança uma sombra sobre minha alegria. Penso em meu retiro em Cabangu, na serenidade das montanhas de Minas, e temo pelo que virá. Se os homens do futuro disputam com tanto afinco a posse de pensamentos, o que não farão com as máquinas que lhes dei? Pressinto, com uma melancolia que me invade a alma, que meus aeroplanos, nascidos para unir, serão convertidos em armas para dividir. Que o céu, este território que revelei como um bem comum, será também fatiado por fronteiras invisíveis, patrulhas e guerras. O homem voa, sim. Mas para onde?
tech · 07 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

OpenAI questiona práticas de segurança da Apple em caso de segredos comerciais

Ler matéria completa →Fonte: TechCrunch