Aqui em Paris, o eco dos aplausos no Campo de Bagatelle ainda ressoa em meu espírito. O 14-bis elevou-se do chão, provando que o mais pesado que o ar pertence aos céus. Contudo, ao contemplar as nuvens desta cidade que me acolheu, uma sombra premonitória atravessa meu coração. Sonhei com um céu sem fronteiras, um território comum a toda a humanidade, tão vasto e livre quanto os horizontes da minha infância na fazenda de Cabangu. Chega-me às mãos, no entanto, um estranho rumor de um tempo vindouro, um relato sobre as ilhas do Havaí em um distante século vinte e um. Diz o texto que aquelas comunidades buscam nas tradições de seus antepassados a força para alimentar sua própria gente, fugindo de uma dependência externa quase absoluta. Pergunto-me: será este o mundo que minha invenção ajudará a forjar? Um globo tão interligado que arquipélagos inteiros perdem sua autossuficiência, tornando-se reféns de máquinas voadoras e navios de aço para o pão de cada dia? Projetei o aeroplano para unir os povos, para encurtar distâncias e fazer da imensidão azul uma ponte de fraternidade. Recuso a ideia de fronteiras, pois de lá do alto não podemos ver as linhas que dividem os homens. Mas temo, com uma melancolia que me rouba o sono, que esta mesma máquina se converta em um instrumento de dominação e de guerra. Temo que os ares sejam loteados por nações armadas, transportando não a paz, mas a destruição e a tirania dos fortes sobre os mais vulneráveis. Os havaianos desse futuro insondável olham para a terra e para a água em busca de soberania, honrando as técnicas de seus avós para garantir o sustento. Eu, que dediquei a vida a domar o ar, curvo-me a essa sabedoria terrena. A verdadeira liberdade não reside apenas na capacidade de cruzar oceanos em poucas horas, mas no direito de existir e prosperar no próprio solo. Que os aeroplanos do amanhã sirvam apenas para admirar a beleza dessas lavouras ancestrais lá do alto, e jamais para lançar a terrível sombra dos canhões sobre povos que desejam apenas cultivar a paz.
Sociedade · 21 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Comunidades no Havaí resgatam tradições ancestrais para garantir soberania alimentar

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