Paris ainda celebra, e meu coração se enche de um orgulho cordial por minha recente conquista com o 14-bis. Contudo, em meio aos brindes e cumprimentos, chegou-me às mãos um despacho singular, um rumor vindo de um futuro que mal ouso imaginar. O escrito fala de um debate sobre os impérios, sobre culpas e piedades que, ao que parece, ainda assombrarão o mundo. Um filósofo de nome Wells argumenta contra uma visão que aparta o mundo entre algozes e vítimas, defendendo a força e a vontade próprias das nações que não nasceram na Europa. Confesso que tal ideia não me é estranha. Vindo de meu Brasil, da vastidão de Cabangu onde primeiro sonhei com as alturas, aprendi que cada povo possui sua própria alma e seu próprio gênio, e não deve ser visto como mero reflexo das potências de então. Meu sonho, ao construir o mais-pesado-que-o-ar, foi precisamente o de oferecer uma ferramenta para que todos os homens, de todas as nações, pudessem se encontrar acima das fronteiras arbitrárias que se desenham nos mapas. O céu, este oceano azul que nos cobre a todos, não conhece impérios nem colônias; é um território comum, um convite à comunhão. Mas uma melancolia premonitória me acomete. Temo que este mesmo aparelho, que concebi para unir, seja transformado em arma. Que dos céus, em vez da amizade entre os povos, desça o fogo da destruição, criando novas castas de algozes e vítimas. Que o engenho humano, que nos permitiu voar, sirva para aprofundar as mesmas feridas que este filósofo do porvir lamenta. Oxalá a humanidade escolha as alturas para o encontro, e não para a guerra, honrando a liberdade que os céus nos oferecem.
Filosofia · 13 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Colonialismo Europeu: Um Erro Histórico Que Ainda Assombra Debates

Ler matéria completa →Fonte: 3 Quarks Daily ↗