Ainda sinto o champanhe a borbulhar e o alívio da conquista aqui em Paris. O Campo de Bagatelle parece um sonho de poucos dias atrás, a prova de que o homem pode, enfim, dominar os ares por seus próprios meios. Contudo, em meio às felicitações, chega-me às mãos um despacho de um tempo vindouro, um rumor tão estranho que quase o julgo uma fantasia. O escrito fala de 'leilões' e 'aeroportos', de uma cidade futura chamada 'Brasília' cujo céu seria negociado como um lote de terra. Mencionam a disputa entre grupos suíços e argentinos por um 'hub aéreo', um 'filé com osso'. Que linguagem é esta? Que mundo é este que transforma a maior liberdade do homem em uma concessão? Onde eu vi um boulevard aéreo a unir os povos, sem fronteiras ou alfândegas, este futuro enxerga um ativo a ser monetizado. O meu 14-bis não se ergueu do chão para que o céu fosse fatiado e vendido ao licitante mais alto. Lembro-me dos campos abertos de Cabangu, onde o ar não tinha dono nem passaporte. Este pedaço de papel, com sua lógica de lucro e terminais deficitários, me entristece profundamente. Ele prenuncia o que mais temo: se o céu pode ser comprado e vendido, ele também pode ser armado e usado para a guerra. O mesmo espírito que precifica o voo é o que, por certo, o transformará em arma de destruição. Eu sonhei com asas para a humanidade, não com contratos de concessão. Espero, do fundo da alma, que este presságio seja apenas um mau agouro, um delírio passageiro.
Infraestrutura · 21 de set. de 2026
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