Chega-me este rumor, como o eco de um sino distante, sobre uma metrópole vindoura chamada São Paulo. Falam de uma lei, a ‘Cidade Limpa’, que purga a paisagem de seus excessos, tal como o anatomista remove o supérfluo para revelar a beleza do músculo e do osso. Agora, porém, desejam criar uma praça de luz incessante, uma ‘Times Square’. Que engenho é este? Anoto em meu códice: o olho é o senhor dos sentidos, a janela da alma. Sua pupila, qual diafragma de uma câmara escura, regula a entrada da luz para formar a imagem com precisão. Estudei por anos a ciência do sfumato, a transição delicada entre a luz e a sombra que dá vida à face pintada, que confere profundidade à paisagem. O que sucede a este nobre órgão quando é bombardeado por painéis que brilham com fúria, mudando de cor como um camaleão frenético? Esta ‘poluição visual’ não seria uma ofensa direta à mecânica divina da visão? O espírito se fatigaria, a mente se turvaria, incapaz de contemplar a forma pura das coisas. Uma cidade é como um grande corpo, percorrida por fluxos de gentes e águas. Um excesso de estímulos é como um redemoinho que impede o curso sereno de um rio. A arte da engenharia, seja de um canal, de uma máquina voadora ou de uma urbe, reside na harmonia, não no tumulto. Para que serve tal espetáculo de luzes? Para mover o comércio, dizem. Mas a que custo para a alma dos cidadãos? Questiono-me se os homens deste futuro esqueceram que a beleza reside no equilíbrio. O vazio em uma tela é tão importante quanto a figura. A pausa na música é o que define a melodia. Talvez uma cidade, para ser verdadeiramente vista e amada, precise mais de suas sombras e de seu silêncio do que de mil sóis artificiais a gritar ao mesmo tempo.
Startups · 27 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

“Times Square Paulistana” e os 20 anos da Lei Cidade Limpa: o debate sobre publicidade urbana em SP

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