Recebo, com assombro, um despacho que parece vindo de um tempo ainda não nascido. Narra a perda de uma joia da arquitetura em Glasgow, obra de um contemporâneo, o senhor Mackintosh, consumida pelo fogo e, o que mais me espanta, abandonada à própria sorte por falta de recursos. Como pode o futuro, que imagino tão pródigo em maravilhas, ser tão parco na vontade de preservar a beleza? A notícia perturba-me profundamente. Há poucas semanas, aqui em Paris, o meu 14-bis provou ao mundo que o homem pode, enfim, alçar-se mais pesado que o ar. Voei sobre o Campo de Bagatelle, mas a minha mente viajava para os horizontes abertos de Cabangu, onde o céu não é uma barreira, mas um convite. Sonhei com o aeroplano como um instrumento de união, uma forma de tornar obsoletas as fronteiras que os homens traçam na terra com tanto zelo e tanto sangue. Uma ferramenta para aproximar os povos, não para aniquilá-los. Este relato de Glasgow, no entanto, soa como um presságio sombrio. Se a humanidade vindoura será capaz de assistir impassível à ruína de sua própria arte em terra, o que não fará com o poder que lhe entreguei nos céus? Arrepia-me a ideia de que o engenho que criei para unir possa ser convertido em arma, para semear uma destruição muito mais vasta do que um incêndio acidental. Que o meu sonho de liberdade se transforme no pesadelo de cidades em chamas, bombardeadas do alto. O céu deve ser um patrimônio de todos, um território livre para o encontro e a fraternidade. Esta notícia de um futuro onde a beleza se perde por cálculo me faz temer que a invenção que nos eleva possa também nos conduzir à nossa mais profunda queda. Espero, com o coração apertado, que os homens do porvir escolham construir, e não apenas nos céus, mas também sobre as cinzas de seu passado.
Arquitetura · 23 de jul. de 2026
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