Chega-me às mãos, neste outono parisiense, um despacho que parece saído da pena de um Verne ainda mais ousado. Um relato de 1926, não, de 2026, um século inteiro à nossa frente. Leio sobre foguetes, máquinas de incrível poder que partem da China em rápida sucessão, levando para os céus artefatos chamados 'satélites' a serviço de nações árabes. Mal consigo processar a escala. Há poucas semanas, em Bagatelle, meu 14-bis flutuou por sessenta metros, e senti que havia aberto uma porta para a humanidade. Este texto, porém, não fala de portas, mas de autoestradas celestes. A ideia de povos tão distantes cooperando no alto, usando o firmamento como ponte, enche meu peito de um orgulho que transcende minha própria obra. É a realização de um ideal: o ar como patrimônio comum, um solvente para as fronteiras que nos separam em terra. Contudo, uma melancolia me assalta. O despacho menciona um 'programa espacial chinês', fala em 'cadência operacional' e 'resiliência'. Esta é a linguagem da competição, da indústria e, temo, da força. Penso no potencial destrutivo que meus próprios inventos podem um dia assumir nas mãos dos exércitos. Será que o céu, este domínio que sonhei livre e universal, será loteado por nações? Que o homem levará para as estrelas as mesmas disputas mesquinhas que travamos no chão? De minha infância em Cabangu ao meu trabalho em Paris, sempre vi o mesmo céu. Ele não tem dono. Espero, com toda a força de minha alma, que os homens do futuro, com seu poder que hoje me parece divino, jamais se esqueçam disso.
space · 17 de ago. de 2026
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