Paris ainda celebra o voo do meu 14-bis, e meu peito se enche de um orgulho sereno. Pairar sobre o Campo de Bagatelle foi a materialização de um princípio que me é caro: fazer o que nunca foi feito. Eis que me chega às mãos, como um sussurro do porvir, uma estranha notícia sobre artistas de um Japão futuro, devastado por uma guerra que ainda não posso conceber. O lema deles, curiosamente, é o mesmo que o meu. Sinto uma afinidade imediata com esse espírito, essa recusa em aceitar o impossível. Contudo, a afinidade cede espaço a uma funda melancolia. Eles buscam a liberdade não nos céus, mas na lama. Usam o próprio corpo como ferramenta, em resposta a uma era de autoritarismo e desdita. Que terrível conflito será esse, capaz de levar os homens a buscar a expressão mais pura na matéria bruta, como se as máquinas tivessem se tornado sinônimo de opressão? Eu, que trabalho com a seda, o bambu e a precisão dos motores para libertar o homem do solo, vejo um sombrio augúrio nesse despacho. Temo que meus aeroplanos, que sonho ver cruzando os céus como mensageiros da paz e da união entre os povos, possam se tornar instrumentos dessa mesma destruição que obriga a arte a regressar à terra. O céu que vejo daqui de Paris, o mesmo que cobre minha distante Cabangu, não deve conhecer fronteiras nem servir à barbárie. É um território comum, um convite à elevação. E rezo para que o grito desses artistas futuros não seja a única forma de liberdade que reste à humanidade.
Arte · 31 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

“Faça o que nunca foi feito”: o grito de liberdade do Gutai

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