Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e o ruído do motor Antoinette. Paris me aplaudiu, o Campo de Bagatelle testemunhou que o homem pode, enfim, ser mais pesado que o ar e ainda assim voar. Em meio a estas alegrias, chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor de um futuro distante, datado de 2026. A linguagem é quase indecifrável: ‘Ibovespa’, ‘valuation’, ‘Santander’. Falam de um ‘desconto’ sobre a nação, como se o Brasil fosse uma mercadoria em promoção. Discutem ‘riscos’ e projetam ‘pontos’, como se o destino se resumisse a um gráfico de apostas. Confesso que tal abstração me perturba. O risco que conheço é o da queda, da explosão, do fracasso ante os olhos do mundo. O valor que persigo não se mede em ‘pontos’, mas na conquista do impossível, na união dos povos. Meu sonho, ao elevar o 14-bis do chão, nunca foi criar uma nova fronteira para ser precificada. Pelo contrário, foi apagar as fronteiras. O céu não deveria ter donos nem alfândegas; seria a via universal que ligaria minha Cabangu a esta Paris, sem distinção, um território comum a toda a humanidade. Receio que essa mesma lógica de ‘descontos’ e ‘assimetrias’ venha a se apossar dos ares. Temo que usem minha invenção não para aproximar os homens, mas para despejar fogo sobre eles, transformando a abóbada celeste num novo campo de batalha, numa outra bolsa de valores onde se negocia a vida e a morte. Espero, do fundo da alma, que este futuro de 2026 encontre uma riqueza que não se calcula, e que o verdadeiro valor de voar seja sempre a liberdade, e não seu preço.
Finanças · 11 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Ibovespa: barato, mas sem gatilho à vista

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