Chega-me às mãos, trazido por um mercador de fábulas ou um delírio febril, um relato assombroso sobre uma oficina na Áustria, em uma vila chamada Thalgau. Dizem que uma guilda de nome Sony cessa a forja de discos físicos para um teatro de ilusões chamado PlayStation. Afirmam que fabricavam seiscentos mil desses discos por dia! Que força motriz alimenta as engrenagens e polias dessa fábrica? Nem o curso inteiro do rio Arno, represado por minhas melhores eclusas e rodas de água, poderia mover prensas com tamanha voracidade diária. Seiscentos mil. Nota: calcular a tensão mecânica, o atrito dos eixos e o desgaste das roldanas para tal feito geométrico. O rumor fala de uma transição para a distribuição digital, tornando o objeto obsoleto. A matéria, portanto, dissolve-se em números, em pura proporção matemática voando pelo éter. É exatamente como o meu estudo da hidráulica: o gelo sólido que se derrete em líquido e depois evapora, tornando-se invisível, mas ainda capaz de mover tempestades e preencher o vazio. Acaso esses artífices do amanhã descobriram como projetar afrescos diretamente no ar, sem a necessidade da argamassa, da madeira e do pigmento? A arte e a técnica convergem perfeitamente nesta alquimia: a máquina de diversão abandona seu corpo tangível, assim como a alma se desprende do cadáver que disseco à noite no hospital de Santa Maria Nuova. Tudo flui, o peso cede lugar ao imaterial. Intriga-me, sobremaneira, o novo ofício dessa unidade industrial: microlentes. Lentes diminutas. Tenho estudado exaustivamente a anatomia do olho humano, o cristalino e a refração da luz que inverte a imagem na câmara escura do nosso cérebro. Se eles redirecionam a força de suas máquinas para fabricar olhos artificiais em miniatura, poderão acaso ver os segredos dos humores do sangue? Ou enxergar as correntes invisíveis e os vórtices que sustentam o voo dos pássaros? Perguntas para investigar ao amanhecer: Primeiro, como a luz atravessa uma microlente sem queimar o suporte pela convergência dos raios? Segundo, pode o ar carregar esses jogos digitais como a água carrega a areia em suspensão? Terceiro, projetar um moinho capaz de polir vidro em escala tão microscópica. A natureza não dá saltos, mas essa guilda Sony parece ter encontrado a alavanca de Arquimedes, transformando peso em pura luz.
tech · 03 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Sony já adapta fábrica na Áustria para o fim dos discos físicos de PlayStation, aponta relato

Ler matéria completa →Fonte: The Verge