Chegou-me às mãos um despacho curioso, vindo não sei de onde, talvez do próprio éter que acabo de conquistar. Fala de um futuro longínquo, de um tal senhor Mullenweg e sua contenda com um 'conselho' pelo controle de sua criação, a 'Automattic'. A linguagem é cifrada, mas a essência do conflito me é dolorosamente familiar. Sou também um fundador, mas minha obra não é uma 'companhia', e meu único conselho é a força dos ventos e a intuição da mecânica. Enquanto o público de Paris ainda celebra o voo do 14-bis, meu espírito se recolhe. Vejo o assombro nos rostos, a alegria pura diante do homem que se fez pássaro. É a realização de um sonho que acalento desde os cafezais de Cabangu, minha terra natal. Sempre imaginei os céus como um novo oceano, uma vastidão a ser partilhada por todos, sem as fronteiras mesquinhas que dividem as nações em terra. O ar, pensava eu, seria o grande equalizador, o território comum da humanidade. Contudo, já ouço os sussurros nos salões e nos ministérios. Generais de olhar astuto me fazem perguntas que não são sobre a beleza do voo, mas sobre sua utilidade estratégica. Falam de alcance, de carga, de observação. Este despacho do futuro, com suas disputas por 'governança' e poder, me soa como um eco agourento. O que é a briga de um homem pelo comando de sua empresa perto da disputa que se avizinha pelo controle dos céus? Temo que minha invenção, concebida para unir, seja convertida em arma para separar e destruir. Que o céu, em vez de ser a estrada livre que sonhei, se torne apenas mais um campo de batalha. Este senhor Mullenweg luta por sua 'web', uma teia que, imagino, conecte as pessoas. Que ironia amarga seria se meu aeroplano, que de fato pode conectar fisicamente o mundo, servisse ao propósito inverso. A melancolia que sinto não é pelo meu destino, mas pelo destino da minha criação, que parece, como a deste homem do futuro, já escapar ao controle de seu criador.
tech · 13 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Automattic confirma retorno de Matt Mullenweg como CEO após disputa com conselho

Ler matéria completa →Fonte: TechCrunch