O silêncio da madrugada, por volta das 3 da manhã, ainda é um gatilho para a autora. Dezenove anos se passaram desde o diagnóstico de mesotelioma peritoneal, e os exames de acompanhamento têm sido consistentemente claros. No entanto, o corpo e a mente parecem não ter recebido a mesma mensagem de segurança. No escuro, ela se encontra em um estado de alerta, escaneando o próprio corpo em busca de qualquer sintoma incomum, um hábito arraigado desde os tempos de tratamento. A pesquisa no Google por dores e pensamentos aleatórios, ou mesmo o despertar do marido para verbalizar a ansiedade, são rituais noturnos que persistem, apesar da certeza intelectual de que está bem.

A Sombra da Vigilância

Essa hipervigilância crônica, segundo a autora, é um reflexo do que aprendeu durante a batalha contra o câncer. Naquele período, a atenção minuciosa aos detalhes e a vigilância eram ferramentas essenciais para a sobrevivência. Agora, mesmo em remissão há quase duas décadas, esse sistema de alerta parece não ter sido completamente desativado. Ela descreve como, externamente, aparenta estabilidade e força, liderando e trabalhando em alto nível. Internamente, porém, a ansiedade se manifesta de outras formas: sono interrompido, necessidade de controle, pesquisa constante de sintomas e um receio silencioso antes de cada exame. Essa condição, que ela chama de ansiedade de alto funcionamento, muitas vezes passa despercebida, pois se camufla sob a produtividade e a responsabilidade.

O Equilíbrio entre Gratidão e Medo

A autora relata que, em consultas médicas, a resposta padrão é "estou bem". E, em muitos aspectos, é a verdade. Ela construiu uma vida plena, retomou sua carreira, criou seus filhos e assumiu posições de liderança. Contudo, a declaração de "livre de doença" não se traduz automaticamente em uma sensação de segurança corporal. A gratidão pela vida que lutou para manter coexiste com um medo persistente da recorrência. Há momentos em que sensações físicas, como uma aperto no peito ou uma respiração superficial, disparam o alarme interno, mesmo sem um motivo aparente ou um diagnóstico médico que justifique a apreensão. Essa dualidade é um dos aspectos mais desafiadores da sobrevivência a longo prazo.

O Inevitável Desgaste Emocional

O cuidado emocional em programas de sobrevivência ao câncer tende a focar em depressão ou sofrimento agudo, deixando a ansiedade de alto funcionamento em segundo plano. Sobreviventes que retornam ao trabalho e gerenciam suas responsabilidades podem não ser identificados como em risco. Hesitam em expressar medo, temendo parecerem ingratos ou não terem superado a doença como deveriam. A fadiga emocional resultante dessa vigilância constante, embora não aparente, é real. Ela se manifesta como um esgotamento no fim do dia, sem uma causa específica, ou uma necessidade maior de tempo sozinha para recarregar as energias. É um desgaste silencioso, que não se encaixa em narrativas claras de sofrimento, tornando difícil sua comunicação e validação.

Uma Jornada Contínua de Restauração

A experiência da autora destaca que a sobrevivência ao câncer é um processo multifacetado, que vai além da ausência da doença. É também uma jornada de restauração emocional, que pode se estender por muito mais tempo do que se imagina. A ansiedade de alto funcionamento, embora não defina quem ela é nem a domine, moldou sua maneira de navegar pelo mundo, especialmente em questões de saúde. Reconhecer essa condição é um passo crucial para que outros sobreviventes, que talvez se sintam sozinhos em seus medos silenciosos, compreendam que não estão isolados. A recuperação completa, em muitos casos, envolve não apenas a cura física, mas também a pacificação de um sistema nervoso que, por necessidade, aprendeu a viver em estado de alerta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider