Em uma coluna de opinião publicada no Brazil Journal, a diretora de marketing da ANBIMA, Amanda Brum, colocou em novos termos um debate central para o mercado de capitais brasileiro: a profissionalização dos influenciadores financeiros, ou “finfluencers”. Com o ecossistema somando mais de 900 criadores e uma audiência combinada de 310 milhões de seguidores, a questão sobre a validação da informação que chega ao investidor de varejo deixou de ser um tópico de nicho para se tornar uma pauta estratégica.

A tese central do artigo não é um ataque aos influenciadores, cujo papel na democratização do acesso à informação financeira é reconhecido. O ponto é mais sutil e estrutural: em um ambiente onde a influência é medida por likes e seguidores, a ANBIMA sinaliza que é hora de adicionar uma nova métrica à equação — a qualificação formal. A discussão, portanto, migra da audiência para a autoridade.

A fronteira entre educar e recomendar

O argumento de Brum distingue duas atividades que, nas redes sociais, muitas vezes se confundem. Uma coisa é explicar o que é um CDB ou como funciona o Tesouro Direto, papel educativo que os influenciadores desempenharam com sucesso. Outra, bem diferente, é dizer a um seguidor onde ele deve alocar suas economias. Esta segunda atividade tangencia a de análise de valores mobiliários, uma profissão regulada pela CVM que exige habilitação específica.

O movimento da ANBIMA não parece buscar uma certificação obrigatória para todo criador de conteúdo, mas sim trazer clareza a essa fronteira. A entidade, que atua na autorregulação do mercado, está construindo um arcabouço para que o próprio ecossistema se organize. Desde 2022, regras já exigem que instituições financeiras verifiquem as credenciais de influenciadores que contratam para atividades reguladas. A mensagem é clara: a responsabilidade é compartilhada.

O selo como ativo reputacional

As ações da ANBIMA são pragmáticas. A entidade lançou um manual de boas práticas e, mais recentemente, passou a incluir no seu estudo FInfluence um dado crucial: quais influenciadores possuem certificações de mercado. Os números iniciais mostram o tamanho do desafio: de um universo vasto, apenas 33 criadores foram identificados com alguma credencial. A intenção, segundo Brum, não é criar um ranking de “bons” e “ruins”, mas tornar a qualificação um fator visível.

Para o influenciador, a certificação se torna um ativo reputacional, um diferencial competitivo. Para a corretora ou banco que o contrata, funciona como uma camada de gestão de risco. E para o investidor na ponta, é um critério a mais para formar seu julgamento. A pergunta que a CMO da ANBIMA deixa no ar — “o que qualifica essa pessoa para falar sobre isso?” — desafia a lógica que regeu a creator economy até agora.

A era da influência financeira baseada apenas em alcance pode estar chegando a um ponto de inflexão. O que se desenha não é o fim dos finfluencers, mas talvez o começo de sua maturação, onde a credibilidade, chancelada por qualificações formais, passará a ser tão ou mais importante que o número de seguidores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech