A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deu um passo para refinar a guerra contra o spam telefônico, mas o alvo, desta vez, não são os spammers, e sim as próprias operadoras. Uma nova regulamentação estabelece regras claras para as ferramentas de bloqueio automático que as teles oferecem, uma resposta direta às consequências indesejadas geradas por essas mesmas soluções. A decisão foi motivada por uma série de reclamações formais contra o serviço Vivo Anti-spam, acusado de barrar indevidamente milhares de chamadas legítimas.
O movimento da Anatel expõe um paradoxo no combate ao telemarketing abusivo: a cura, em certa medida, tornou-se parte da doença. Ferramentas criadas para proteger o consumidor acabaram por prejudicar a comunicação de empresas e até de serviços públicos, como hospitais e prefeituras, que viram suas linhas bloqueadas sem aviso prévio ou direito a recurso. Segundo reportagem do portal Olhar Digital, que motivou a intervenção, uma única empresa reclamante reportou mais de 16 mil chamadas interrompidas.
Calibrando o filtro
A intervenção regulatória busca substituir a lógica de “caixa-preta” por um sistema com mais transparência e accountability. As novas regras determinam que os serviços anti-spam, embora ativados por padrão e gratuitos, devem operar sob critérios de proporcionalidade, considerando frequência e duração das chamadas. Mais importante, a regulamentação blinda números de serviços essenciais — saúde, segurança e defesa civil — e institui um prazo de dez dias para que as operadoras respondam a contestações de bloqueio.
Trata-se de uma mudança de abordagem. Se antes a Anatel focava em criar listas de bloqueio como o “Não Me Perturbe”, agora ela atua para regular as soluções que o próprio mercado desenvolveu. A agência não está proibindo os filtros, mas impondo um manual de instruções. A medida reconhece que, em uma rede de comunicação, o poder de bloquear tráfego é grande demais para ser exercido sem supervisão e sem um devido processo.
O novo arcabouço não representa o fim do spam telefônico, uma batalha que se assemelha a uma corrida armamentista tecnológica. Contudo, sinaliza uma sofisticação da estratégia regulatória. O desafio deixa de ser apenas como bloquear chamadas indesejadas e passa a ser como fazê-lo de forma cirúrgica e justa, estabelecendo regras de engajamento mais claras para uma guerra que está longe de terminar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





