A Rússia está descobrindo da forma mais custosa que replicar o sucesso da SpaceX não é uma tarefa trivial. O projeto Rassvet, a aposta do Kremlin para criar uma constelação de internet via satélite similar ao Starlink, teve um início desastroso. Dos 32 satélites lançados em duas missões pela empresa russa Bureau 1440, nenhum conseguiu atingir a órbita operacional planejada de 800 quilômetros, segundo reportagem do site espanhol Xataka.

O movimento é uma resposta direta ao bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que, em aliança com a SpaceX, restringiu o uso de terminais Starlink pelas forças russas na Ucrânia. Sem acesso à rede de Elon Musk, que se tornou um ativo estratégico no conflito, Moscou acelerou seu programa doméstico. Contudo, os resultados iniciais sugerem que a distância entre a ambição geopolítica e a capacidade de execução tecnológica é vasta. O fracasso do Rassvet não é apenas um revés técnico; é um sintoma das dificuldades que o complexo industrial-militar russo enfrenta sob o peso de sanções e do isolamento.

Um abismo operacional

Os detalhes da falha são contundentes. Diversos satélites do projeto Rassvet estão presos em órbitas baixas e instáveis, entre 300 e 550 quilômetros de altitude. Um dos satélites do primeiro lote já reentrou na atmosfera terrestre em junho, e outros dois do segundo lote podem ter o mesmo destino. A meta russa é ambiciosa: ter 300 satélites em órbita até 2027 e mais de 900 até 2035. No ritmo atual, o objetivo parece inalcançável.

É verdade que mesmo a SpaceX enfrentou problemas no início. Analistas como Jonathan McDowell, um respeitado rastreador de satélites, lembram que os primeiros lotes do Starlink tiveram taxas de falha de até 13%. A diferença crucial, no entanto, reside na capacidade de iteração. A SpaceX opera com um ciclo de produção e lançamento verticalizado e ágil, que lhe permitiu corrigir falhas e escalar a constelação a uma velocidade sem precedentes. A Rússia, por outro lado, parece presa a um modelo mais lento e agora vulnerável.

A Ucrânia, ciente da importância estratégica do projeto, tem trabalhado ativamente para sabotá-lo. Ataques com drones foram direcionados tanto à fábrica que produz os foguetes Soyuz, essenciais para os lançamentos, quanto ao próprio Cosmódromo de Plesetsk, a base de lançamento. A guerra pela conectividade em órbita baixa tornou-se um novo e decisivo front. Para a Rússia, cada satélite que falha não é apenas uma perda financeira, mas um passo atrás em sua capacidade de competir tecnológica e militarmente no século 21.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka