A bolsa brasileira está barata, mas o preço da incerteza política é alto. Essa é a síntese do debate que domina as mesas de operação e as casas de análise enquanto o mercado navega as semanas que antecedem as eleições. Um rali recente, ainda que tímido, foi impulsionado pela perspectiva de queda na taxa Selic e por movimentações no cenário eleitoral, mas o ambiente externo mais desafiador e a névoa fiscal no horizonte doméstico moderam o otimismo.
O consenso, segundo reportagem do InfoMoney que ouviu gestores e estrategistas, é que o cenário para o Ibovespa é "binário". De um lado, a continuidade da atual política econômica; do outro, a possibilidade de um ajuste fiscal mais profundo. A aposta em qualquer uma das direções define a fronteira entre um avanço substancial do índice ou um recuo para patamares pré-rali, colocando os investidores em uma encruzilhada.
O consenso do desconto
O ponto de partida para a tese de investimento é o valuation. Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton Brasil, afirma que o mercado está "bem amassado em relação aos fundamentos". Ele calcula que, se a relação preço/lucro das empresas do Ibovespa retornasse à média histórica, o índice poderia saltar dos atuais 186 mil para 230 mil pontos. O reverso, contudo, é igualmente possível: um fracasso no endereçamento da questão fiscal poderia levar o índice para perto dos 160 mil pontos. A bolsa brasileira também negocia com um desconto significativo em relação a seus pares regionais, na casa de 9 vezes o lucro, contra 13 vezes no Chile e 14 no Peru.
O principal catalisador para uma eventual alta seria a trajetória de queda da taxa Selic. Para Leonardo Mendes, consultor da Manchester Investimentos, o movimento estrutural dos juros é para baixo, o que inevitavelmente beneficiará a bolsa, independentemente do resultado nas urnas. A questão, portanto, não é se a bolsa vai subir, mas com que velocidade e magnitude, variáveis que dependem diretamente da credibilidade da política fiscal a ser implementada pelo governo eleito.
Estratégias na neblina
Diante da incerteza, as estratégias se dividem. Uma corrente defende o "arroz com feijão", como define Mendes: focar em blue chips e empresas de commodities, como Petrobras e Vale, que possuem liquidez e balanços robustos para atravessar a volatilidade. A Franklin Templeton também segue uma linha similar, priorizando ações de alta liquidez e empresas do setor financeiro, como B3, XP e BTG Pactual, que se beneficiariam diretamente de um mercado de capitais mais aquecido por juros menores.
Outros, porém, enxergam o copo meio vazio. Rachel de Sá, estrategista da XP, aponta para a deterioração do cenário global, com juros em alta nos EUA e o petróleo pressionado. A XP adota uma postura mais cautelosa, com alocação em bolsa abaixo do neutro e preferência por nomes de alta qualidade, bons pagadores de dividendos e setores defensivos, como utilities e financeiro. O BTG Pactual também recomenda neutralidade, sugerindo evitar ações muito dependentes de uma melhora nas contas públicas. A divergência mostra que, embora todos concordem com o diagnóstico do desconto, o apetite ao risco varia drasticamente.
A fotografia atual do mercado revela uma oportunidade de valor clara, mas o filme dos próximos meses ainda é um roteiro em aberto. A divergência nas estratégias dos gestores sinaliza que não há uma aposta única. Para o investidor, a decisão transcende a análise de múltiplos e balanços; ela repousa, fundamentalmente, na sua tolerância ao risco político que definirá o rumo da economia brasileira.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





