A rotina de uma editora-chefe no topo de uma das mais influentes publicações de beleza do mundo envolve muito mais do que apenas gerir a revista. Para Jessica Cruel, da Allure, o dia começa às 4:30 da manhã com uma agenda que se desdobra em múltiplas frentes: aulas na New York University, a escrita de um livro, a gestão de três imóveis para aluguel e a criação de conteúdo para suas próprias redes sociais. Tudo isso antes de sua jornada principal começar.
Em um perfil no formato "as-told-to" para o Business Insider, Cruel detalha um dia a dia que é um estudo de caso sobre a produtividade na liderança contemporânea. A leitura aqui não é apenas sobre uma agenda lotada, mas sobre a consolidação do executivo como um "portfólio de atividades", onde a carreira principal é apenas uma, ainda que a mais importante, das fontes de receita e de construção de marca pessoal.
O executivo como portfólio
Longe de ser uma anomalia, o acúmulo de "side hustles" por Jessica Cruel sinaliza uma tendência estrutural. A editora-chefe não é apenas uma funcionária da Condé Nast; ela é uma marca em si mesma. Sua atuação como professora em um mestrado da NYU, o desenvolvimento de seu livro "Single Happy Female" e a administração de propriedades em Nova Jersey e na Geórgia compõem um portfólio profissional diversificado. Cada atividade alimenta a outra, reforçando sua autoridade no mercado e criando resiliência de carreira.
Para gerir essa complexidade, a ferramenta escolhida é paradoxalmente simples: o Post-it. Cruel limita sua lista de afazeres diários a cerca de cinco itens por nota adesiva, uma para o trabalho e outra para os projetos paralelos. Essa compartimentalização é uma tática para impor ordem ao caos. A otimização se estende à alimentação, com refeições prontas da Factor para almoço e jantar, liberando tempo e carga mental para as decisões que realmente importam. O tempo, para ela, é o ativo mais escasso.
A performance da produtividade
O dia a dia de Cruel não é apenas vivido — ele é performado. A executiva documenta partes de sua rotina, como os testes de produtos de beleza, para as plataformas digitais da Allure e para suas próprias redes sociais, que usa para promover o livro. A produtividade, nesse contexto, torna-se um espetáculo, parte da construção de sua imagem pública como uma líder de alta performance. Essa performance, no entanto, exige um controle emocional rigoroso. Ela admite que, enquanto projeta calma para sua equipe, internamente pode estar em pânico em 20% do tempo.
Essa anedota revela a pressão invisível sobre os líderes para personificar a estabilidade, mesmo quando o cenário é incerto. O caso de Cruel, embora inserido na cultura de trabalho americana, ecoa no Brasil, onde múltiplos projetos são uma realidade para muitos profissionais, seja por necessidade ou por estratégia. A diferença é que, em posições de alto escalão, o "side hustle" deixa de ser um complemento de renda para se tornar uma expansão calculada da marca pessoal.
A rotina de Cruel é um modelo de sucesso ou um sintoma de uma cultura de trabalho que não permite desconexão? A gestão de si mesmo como uma empresa com múltiplas unidades de negócio parece ser o novo manual da liderança. A resposta, talvez, resida no ritual diário de descartar o Post-it do dia anterior, um ato simbólico para zerar o placar e recomeçar a maratona.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





