Num gesto de diplomacia corporativa, a Coroa Britânica condecorou dois dos principais executivos do setor hoteleiro espanhol. Gabriel Escarrer, CEO da Meliá Hotels International, e José Luis Benítez, diretor do Palladium Hotel Group e presidente da Spain Nightlife, foram nomeados Membros Honorários da Ordem do Império Britânico (MBE) pelo Rei Charles III.
O reconhecimento, segundo reportagem da Forbes España, não é meramente protocolar. Ele premia o compromisso dos executivos em mitigar os riscos associados ao turismo jovem britânico nas Ilhas Baleares, um destino que atrai anualmente milhões de visitantes do país. A honraria sinaliza uma aliança estratégica para combater um problema complexo: a reputação de destinos como Maiorca e Ibiza como palcos de excessos e comportamentos perigosos.
A diplomacia do turismo responsável
A contribuição de Escarrer foi multifacetada. A Meliá teve papel central na luta contra o "balconing" — a prática de pular de varandas de hotéis em piscinas —, um fenômeno que causou acidentes fatais em Calvià (Maiorca). A rede hoteleira apoiou ativamente a campanha do governo britânico "Stick With Your Mates", que visa conscientizar os jovens sobre os perigos do consumo excessivo de álcool e do isolamento durante as viagens. Além da segurança, a embaixada britânica destacou o compromisso econômico da Meliá, que investiu mais de £400 milhões e gerou milhares de empregos no Reino Unido.
Já o trabalho de Benítez concentrou-se na profissionalização da segurança na vida noturna de Ibiza. Como diretor do Palladium e líder de associações do setor, ele impulsionou medidas para prevenir assédio sexual, agressões e casos de "sumissão química" (uso de drogas para dopar vítimas). Seu esforço não se limitou à ilha, estendendo padrões de segurança internacionalmente através da International Nightlife Association. O foco foi claro: transformar o ambiente de festa em um espaço mais seguro e controlado.
Do problema à solução de mercado
Por décadas, o modelo de negócio de certas localidades nas Baleares esteve atrelado a um turismo de baixo custo e alto risco, predominantemente britânico. Essa imagem, embora lucrativa no curto prazo, gerou custos sociais, de segurança e de marca para a Espanha. A condecoração oficial do Reino Unido representa uma virada nessa narrativa. Os hotéis e as casas noturnas, antes vistos como parte do problema, são agora reconhecidos como agentes da solução.
O movimento sugere uma colaboração público-privada pragmática. O governo britânico admite que não pode policiar o comportamento de seus cidadãos no exterior sem a cooperação do setor privado local. Para os grupos hoteleiros, alinhar-se à agenda de segurança é uma estratégia de reposicionamento, elevando o valor de seus ativos e atraindo um público mais qualificado. É a transição de um modelo extrativo para um de responsabilidade compartilhada.
O prêmio, portanto, transcende o simbolismo. Ele formaliza uma aliança onde a segurança se torna um diferencial competitivo e um pilar da relação bilateral. A questão que fica é se este modelo de corresponsabilidade, que une diplomacia e gestão de mercado, pode servir de exemplo para outros destinos turísticos globais que enfrentam desafios semelhantes, inclusive no Brasil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





