Surtos recentes de contaminação alimentar nos Estados Unidos, que infectaram dezenas de milhares de pessoas com o parasita Cyclospora e hospitalizaram bebês com botulismo por meio de fórmulas infantis, não são eventos isolados. Eles são o sintoma de um problema mais profundo: o desmonte sistemático do sistema de segurança alimentar do país, conforme detalha uma contundente análise de Eric Schlosser para o The Atlantic.
O que se observa é uma corrosão deliberada da capacidade regulatória do Estado. Enquanto a escala e a complexidade da produção industrial de alimentos atingem níveis sem precedentes — onde o leite de uma única lata de fórmula infantil pode vir de milhares de vacas diferentes —, os órgãos responsáveis pela fiscalização, como a Food and Drug Administration (FDA) e o Departamento de Agricultura (USDA), operam com recursos e pessoal cada vez mais escassos. A tese é que o vácuo deixado pela regulação está sendo preenchido pelo risco.
A arquitetura do desmonte
A fragilidade do sistema americano começa em seu desenho. É o único país desenvolvido que divide a responsabilidade pela segurança alimentar entre múltiplas agências, criando sobreposições e lacunas bizarras — uma pizza congelada de queijo é fiscalizada pela FDA, mas se tiver pepperoni, a responsabilidade passa a ser do USDA. Essa fragmentação histórica torna a fiscalização inerentemente complexa, mas o cenário foi agravado por ações recentes da administração Trump.
O desmonte, segundo a reportagem, é metódico. A FDA, que supervisiona cerca de 80% dos alimentos do país, perdeu lideranças técnicas cruciais. James Jones, um respeitado chefe da divisão de alimentos humanos, renunciou em 2025 após a demissão indiscriminada de 89 funcionários. Seu substituto, Kyle Diamantas, não possui formação científica ou em saúde pública; é um advogado que já defendeu a Abbott Laboratories — uma das gigantes de fórmula infantil — em processos sobre a segurança de seus produtos. O USDA, por sua vez, perdeu cerca de um quinto de sua força de trabalho, e programas de vigilância de patógenos no CDC foram drasticamente reduzidos.
O custo da inação e o poder do lobby
O paradoxo é que as soluções são conhecidas e comprovadamente eficazes. A reportagem relembra a implementação da regra de “testar e reter” para carne moída, que praticamente eliminou grandes surtos de E. coli nos EUA. A política foi o resultado de anos de campanha de ativistas como Barbara Kowalcyk, uma bioestatística cujo filho morreu por contaminação. Hoje, uma abordagem semelhante poderia reduzir drasticamente a presença de Salmonella em frangos, que contamina quase um terço do produto vendido nos supermercados americanos. A Dinamarca, com regras rígidas, reduziu a contaminação em 99,6%.
No entanto, uma nova regra que proibiria a venda de aves altamente contaminadas com Salmonella foi bloqueada pela administração Trump, que a considerou um “fardo financeiro significativo” para as empresas. A decisão foi apoiada pelo lobby da indústria da carne e de aves. O mesmo poder de influência impede o governo de usar sua principal alavanca no mercado de fórmulas infantis. Por meio de programas sociais, o governo federal compra mais da metade das fórmulas consumidas no país, mas se recusa a usar esse poder de compra para exigir padrões de segurança mais elevados de um setor dominado por apenas duas empresas.
A resposta da indústria à regulação hoje ecoa a de um século atrás, quando o livro A Selva, de Upton Sinclair, expôs as práticas insalubres dos frigoríficos: “Estamos pagando tudo o que nos importamos em pagar”. A diferença é que, agora como antes, o custo real recai sobre a saúde pública.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas





