A cada grande salto tecnológico, o mercado é tomado por uma convicção contagiante: “desta vez é diferente”. A atual onda de otimismo com a inteligência artificial generativa não é exceção, evocando a mesma retórica de “nova era” que precedeu grandes correções de mercado no passado. A narrativa, como aponta uma análise da Fast Company, é sedutora e perigosa.

O problema desse pensamento é que ele não beneficia apenas os inovadores genuínos. Ele também cria um ambiente fértil para empresas marginais e oportunistas, que amplificam a euforia e elevam o risco sistêmico. Quando a gravidade se impõe e esses players colapsam, o impacto arrasta todo o ecossistema, separando as promessas reais da especulação desenfreada.

O roteiro da bolha ponto-com

A história recente oferece um paralelo claro. Em 1995, o IPO da Netscape deu início à bolha da internet. Uma empresa sem lucros atingiu uma avaliação bilionária da noite para o dia, validando a tese de mercados onde “o vencedor leva tudo”, como descreveu o economista W. Brian Arthur. Venture capitalists, vislumbrando retornos exponenciais, injetaram capital massivo no ecossistema, financiando o boom ponto-com.

O erro foi acreditar que o modelo de software — com altos custos iniciais e custo marginal zero — se aplicava a qualquer negócio. O mercado atingiu o pico em 2000 e a bolha estourou. Milhares de startups desapareceram, e até empresas tradicionais como a Enron, contagiadas pela euforia, acabaram em escândalos e falência. A fusão da AOL com a Time Warner tornou-se o símbolo de uma era de excessos.

A miragem da engenharia financeira

Outro capítulo dessa mesma história foi a crise financeira de 2008. Nos anos anteriores, uma revolução na matemática financeira, baseada na Hipótese do Mercado Eficiente, promoveu a ideia de que o risco poderia ser modelado, precificado e eliminado por meio de engenharia sofisticada. Modelos como o Black-Scholes não apenas renderam prêmios Nobel, mas criaram uma indústria inteira que acreditava ter domado a volatilidade.

Sinais de alerta, como as anomalias apontadas pelo matemático Benoit Mandelbrot décadas antes e o colapso do hedge fund LTCM em 1998, foram ignorados. A promessa de lucros quase ilimitados era conveniente demais para ser abandonada. A crise de 2008 demonstrou que tudo não passava de uma miragem, quase colapsando a economia global.

Hoje, a euforia em torno da capacidade de LLMs de gerar código e executar tarefas complexas alimenta um sentimento similar de disrupção total. A questão que fica não é se a IA é transformadora, mas se o ecossistema que a financia está, mais uma vez, subestimando as velhas regras da economia e da gravidade financeira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company