Dados federais indicam que os preços de medicamentos sob prescrição nos Estados Unidos registraram uma queda de 3,1% no último ano, o declínio mais acentuado desde 1963. A administração de Donald Trump prontamente reivindicou o crédito, citando seus acordos de “nação mais favorecida” e a plataforma TrumpRx como os motores da redução.

A realidade, contudo, é mais complexa. Segundo uma análise da revista Fortune, a dinâmica envolve múltiplos fatores, e o protagonismo pode não estar onde a Casa Branca aponta. A tese central é que a combinação de maior competição no mercado e, crucialmente, uma lei da era Biden que alterou fundamentalmente o poder de negociação do governo, são os verdadeiros catalisadores da mudança.

O legado de Biden no balanço de Trump

O principal elemento disruptivo parece ser o Inflation Reduction Act (IRA), sancionado em 2022 durante a presidência de Joe Biden. Pela primeira vez na história, a lei concedeu ao Medicare — o sistema público de saúde para idosos — o poder de negociar diretamente os preços dos medicamentos de maior custo com as farmacêuticas. Os novos valores para os primeiros dez medicamentos negociados entraram em vigor em janeiro, e especialistas ouvidos pela Fortune veem este como um impacto direto e significativo nos preços agregados.

Em contraste, as iniciativas de Trump, embora ruidosas, têm efeito incerto. Os acordos de “nação mais favorecida”, que visam equiparar os preços americanos aos de outros países desenvolvidos, ainda não foram implementados em sua totalidade e seus contratos não são públicos. Já o portal TrumpRx, que ajuda a encontrar descontos, é visto como uma ferramenta útil de transparência, mas seu impacto real nas economias dos pacientes é de difícil mensuração, com os próprios métodos de cálculo de economia sendo questionados por legisladores democratas.

Entre o índice e o bolso do paciente

Além da arena política, forças de mercado desempenham um papel crucial. A entrada de medicamentos biossimilares para concorrer com blockbusters como o Humira, e a competição acirrada em torno de tratamentos como o Stelara, estão naturalmente empurrando os preços para baixo. É a dinâmica clássica de oferta e demanda exercendo sua função, um fator que independe do ocupante da Casa Branca.

É fundamental notar, ainda, que o índice de preços ao consumidor (CPI) mede o valor pago às farmácias por seguradoras e pacientes, e não reflete diretamente o custo final para o indivíduo. A queda no preço de um medicamento pode ser ofuscada por um aumento no prêmio do seguro de saúde ou em outras despesas médicas. Portanto, a percepção de alívio no orçamento familiar pode não ser tão imediata quanto os números macroeconômicos sugerem.

A disputa pela narrativa política ofusca a complexa engenharia por trás dos custos de saúde. Para o paciente americano, a diferença entre o preço de tabela e o desembolso final continua sendo a métrica que realmente importa, independentemente de quem assina a política pública que gera a manchete do dia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune