A ansiedade em relação ao futuro não é uma novidade, mas para a Geração Z, ela adquiriu uma dimensão sistêmica e paralisante. O termo “ecoansiedade”, definido pela Associação Americana de Psicologia como um “medo crônico da catástrofe ambiental”, já não parece suficiente para capturar o mal-estar de jovens que crescem sob o peso de múltiplas crises sobrepostas. Em resposta, uma nova safra de organizações está criando redes de apoio para ajudar essa geração a processar seus medos e, crucialmente, transformá-los em ação.

Segundo uma extensa reportagem da MIT Technology Review, o fenômeno transcendeu o clima e hoje é melhor descrito como uma “policrise”: o aquecimento global se soma a pandemias, conflitos geopolíticos, inflação, ascensão do autoritarismo e a ameaça da automação por IA. Para lidar com a angústia resultante, iniciativas como a britânica Force of Nature e a americana Good Grief Network oferecem programas, majoritariamente online, que funcionam como uma espécie de terapia de grupo informal. A tese central é que, ao validar esses sentimentos como uma resposta racional a um mundo disfuncional, é possível canalizar a energia do desespero para o ativismo pragmático.

Da Ecoansiedade à Policrise

A escala do problema é bem documentada. Um estudo de 2021 publicado na revista The Lancet Planetary Health, que ouviu 10 mil jovens em dez países, revelou um cenário desolador: 56% concordavam com a afirmação de que “a humanidade está condenada” e mais de 45% afirmaram que a ansiedade climática afetava seu dia a dia. A psicoterapeuta Caroline Hickman, que liderou o estudo, aponta que a angústia não vem apenas do estado do planeta, mas da percepção de que as gerações mais velhas falharam em protegê-los, quebrando um contrato social fundamental.

O conceito de “policrise” expande essa análise. Não se trata apenas de luto pelo que já se perdeu ambientalmente, mas de uma ansiedade generalizada diante de um futuro multifacetado e incerto. Uma pesquisa polonesa de 2025, citada pela reportagem, buscou definir a “síndrome da policrise” e descobriu que mais de 60% dos jovens relataram dificuldades de regulação emocional e sintomas de depressão atribuídos ao estresse cumulativo dos assuntos globais. Em contraste com a ansiedade nuclear da Guerra Fria, quando a maioria dos jovens ainda acreditava que “a raça humana já passou por tempos difíceis antes e o fará de novo”, a Geração Z parece exibir um pessimismo mais profundo e abrangente.

Transformando Angústia em Ação

As novas redes de apoio partem do princípio de que a validação é o primeiro passo. A Force of Nature, fundada pela então adolescente Clover Hogan em 2019, organiza sessões gratuitas via Zoom onde facilitadores asseguram aos participantes que é normal “se sentir doente junto com um planeta doente”. O programa ajuda os jovens a identificar suas paixões e habilidades para, em seguida, criar um “mapa de ação” pessoal. A filosofia é pragmática, encapsulada no lema de Hogan: “Não precisamos de 100 ativistas perfeitos, mas de milhões de imperfeitos”.

De forma similar, a Good Grief Network adaptou seu modelo de 10 passos para adultos (inspirado nos Alcoólicos Anônimos) para um programa mais interativo para adolescentes, o GGN-Z. Atividades como o “mural de grafite de más notícias”, onde os jovens escrevem o que os aflige, permitem externalizar a ansiedade coletivamente. Em seguida, o foco se volta para o positivo, mapeando redes de apoio pessoais e pensando em ações concretas e locais, como ajudar um vizinho ou participar de uma limpeza de praia. O objetivo não é consertar o mundo, mas cultivar valores e agência no próprio entorno imediato.

O desafio, agora, é provar que esses métodos funcionam. Psicólogos e os próprios criadores dos programas reconhecem a urgência de medir o impacto real dessas intervenções. Projetos de pesquisa estão em andamento para avaliar se os participantes de fato relatam melhora no bem-estar e maior capacidade de gerenciar suas emoções. A ciência corre para entender o que funciona, para quem e em que contexto, antes que a necessidade por essas ferramentas se torne ainda mais massiva. A questão não é se os jovens devem se preocupar, mas como podem fazê-lo de uma forma que seja produtiva, e não apenas debilitante.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Technology Review