Uma declaração do candidato Flávio Bolsonaro (PL) sobre o etanol, na qual afirmou que “a gasolina virou etanol” e criticou a mistura do biocombustível, forçou sua campanha a uma operação de controle de danos. O coordenador-geral, senador Rogério Marinho (PL-RN), emitiu uma nota à imprensa para apaziguar as críticas de entidades do setor produtivo e da oposição.

A manobra expõe um dilema central na plataforma do candidato: como conciliar o discurso que ecoa a insatisfação do consumidor com o preço dos combustíveis e, ao mesmo tempo, garantir o apoio de um dos setores mais estratégicos do agronegócio brasileiro. A leitura é que o episódio revelou uma dissonância entre a retórica de palanque e a política industrial que se pretende projetar.

O controle de danos

A resposta da campanha foi rápida e buscou não apenas neutralizar a polêmica, mas também posicionar o candidato como um defensor da bioenergia. Segundo a nota de Marinho, o plano de governo de Bolsonaro propõe transformar o Brasil em uma “potência de biocombustíveis”. A estratégia se apoiaria no fortalecimento e expansão do RenovaBio e na aplicação da Lei do Combustível do Futuro, que permitiria ao país vender créditos de carbono globalmente.

Para dar substância à promessa, o coordenador citou incentivos concretos, como a redução de impostos sobre o etanol hidratado, simplificação tributária e linhas de crédito para inovação em biogás e hidrogênio verde. O movimento sinaliza uma tentativa de alinhar a candidatura às pautas de transição energética e inovação, buscando tranquilizar um setor que reagiu de forma imediata e negativa à fala original de Bolsonaro.

A política por trás da polêmica

O ponto mais sensível da nota de Marinho é a abordagem sobre a mistura obrigatória de etanol na gasolina. Ao mesmo tempo em que a classifica como uma “política de Estado” essencial para a segurança energética e ambiental, o senador critica seu uso como “instrumento episódico para tentar conter a alta dos preços”. A crítica é uma referência direta a uma decisão recente do governo Lula, que elevou o percentual para 32%.

Fica evidente a tentativa de equilibrar pratos. A campanha tenta se diferenciar da gestão atual, acusando-a de intervencionismo eleitoreiro, enquanto se compromete com a previsibilidade de longo prazo que o setor demanda. A questão é se essa ginástica retórica é suficiente para apagar a impressão deixada pela fala inicial do candidato, que sugeriu uma rediscussão da política de mistura.

A contradição entre o discurso do candidato e a nota de sua coordenação deixa em aberto qual visão prevaleceria em um eventual governo. O setor sucroenergético e o mercado observarão atentamente os próximos passos para decifrar se a política para biocombustíveis será guiada pelo pragmatismo desenvolvimentista ou por acenos populistas ao consumidor final.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times