A China está transformando um dos sentimentos mais universais em um mercado multibilionário: a solidão. O fenômeno, batizado de "economia da solidão", cria produtos e serviços para uma população cada vez maior de pessoas que vivem, comem e viajam sozinhas. Um dos exemplos mais curiosos são os "pei pa", acompanhantes contratados para atividades como escalar uma montanha, que oferecem companhia e conversa por tarifas que variam de 200 a 600 yuans (cerca de R$ 150 a R$ 450).

Este não é um movimento de nicho, mas um reflexo de profundas transformações demográficas e sociais. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, o crescimento de lares unipessoais, a queda na taxa de natalidade e o envelhecimento da população criaram um novo perfil de consumidor, com demandas que o mercado tradicional, focado em famílias e grupos, não atendia. A indústria agora corre para se adaptar.

As raízes do novo consumo

Os números confirmam a tendência. A proporção de lares com apenas uma pessoa na China saltou de 23% em 2020 para 29% atualmente, com projeção de alcançar um terço do total até 2030. Embora ainda abaixo de países como Japão (43%) e Coreia do Sul (39%), a escala chinesa torna o mercado exponencialmente maior.

Uma análise do Goldman Sachs, citada na reportagem, ilustra a mudança de paradigma: em 2030, a previsão é que o número de cães e gatos em áreas urbanas (mais de 70 milhões) ultrapasse o de crianças com menos de cinco anos (menos de 40 milhões). O investimento em animais de estimação, vistos como substitutos para a companhia humana, é um dos pilares dessa nova economia.

Da companhia ao código

A "economia da solidão" vai muito além de acompanhantes. Abrange desde cabines de karaokê individuais e assinaturas de streaming até o uso de assistentes de inteligência artificial. Para os mais velhos, surgem serviços como o "aluguel de filhos", jovens contratados para oferecer companhia e ajuda.

A tecnologia também desempenha um papel central. Aplicativos como o 'Sileme' ("Você está morto?", em tradução livre) foram criados para garantir a segurança de quem mora sozinho, enviando um alerta caso o usuário não confirme que está bem a cada 48 horas.

O fenômeno não é impulsionado apenas pela solidão involuntária. Parte crescente desse público é formada por jovens que escolhem ativamente um estilo de vida focado em si mesmos, sem parceiros ou filhos. Para as empresas, essa mudança representa uma fronteira de inovação em produtos e serviços. Para a sociedade, levanta questões complexas sobre o futuro das conexões humanas em um mundo cada vez mais individualizado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka