A percepção pública sobre o clima nem sempre coincide com os registros científicos. Enquanto o verão de 2025 na Espanha foi marcado por uma sensação constante de calor intenso, os dados da Agencia Estatal de Meteorología (AEMET) revelam um quadro mais restrito: foram registradas apenas três ondas de calor na Península e Baleares, e duas nas Ilhas Canárias. A discrepância entre a experiência cotidiana e o dado oficial reside na definição técnica do fenômeno, que exige muito mais do que temperaturas elevadas.

Segundo a AEMET, o conceito de onda de calor é um episódio de temperaturas anormais que se estende por um período prolongado e afeta uma área geográfica significativa. O rigor na classificação é essencial para o planejamento de políticas públicas de saúde e infraestrutura, evitando que flutuações térmicas de curta duração sejam tratadas com a mesma gravidade estatística que eventos climáticos de longa persistência.

Critérios técnicos da AEMET

Para que uma onda de calor seja oficialmente declarada na Espanha, a agência estabelece três requisitos cumulativos. Primeiro, o fenômeno deve durar pelo menos três dias consecutivos. Segundo, é necessária a detecção de temperaturas extremas em, no mínimo, 10% dos observatórios de referência da região. Por fim, as temperaturas máximas registradas devem superar o percentil 95 — o valor que separa os 5% de dias mais quentes — calculado com base nas médias históricas de julho e agosto entre 1971 e 2000.

Nas Ilhas Canárias, devido à menor densidade de estações meteorológicas, a regra do 10% é adaptada para exigir que ao menos dois observatórios detectem temperaturas acima do limiar estabelecido. Essa estrutura garante que o alerta não seja disparado por uma anomalia isolada em um único ponto, mas sim por uma condição climática que impacta vastas áreas do território nacional.

O impacto da variabilidade regional

Um dos pontos mais críticos na metodologia da AEMET é o uso de limiares baseados em estações de referência, e não em médias nacionais. Isso reconhece que o que constitui um calor extremo varia drasticamente entre o norte e o sul do país. Enquanto em Sevilha o percentil 95 reflete patamares de temperatura muito superiores a 40ºC, em cidades como A Coruña, o limiar é significativamente mais baixo, situando-se próximo aos 30ºC.

Essa abordagem descentralizada permite que os alertas sejam contextuais. A lógica é que o sistema biológico e a infraestrutura urbana de cada região estão adaptados a faixas térmicas específicas. Portanto, uma onda de calor é definida pela quebra desse padrão local, independentemente de a temperatura absoluta ser comparável à de outras regiões do país.

Desafios na monitoração climática

A duração das ondas de calor tem sido o indicador mais preocupante nos últimos anos. Embora o ano de 2015 mantenha o recorde de uma única onda de calor com 26 dias de duração, o acumulado de dias sob alerta em 2022 e 2025 demonstra uma tendência de intensificação. O fato de 2025 ter somado 33 dias sob essas condições ressalta a pressão contínua sobre os sistemas de saúde e o consumo de energia.

Além disso, o fenômeno deixou de ser uma exclusividade das zonas tradicionais de calor. A ocorrência de ondas de calor em regiões subárticas da Noruega, Suécia e Finlândia, com temperaturas superando os 30ºC dentro do Círculo Polar Ártico, sugere que as definições meteorológicas enfrentam um cenário de mudanças globais aceleradas, exigindo revisões constantes dos parâmetros de referência.

Perspectivas e incertezas

A eficácia dessas definições depende da capacidade de comunicação entre o órgão meteorológico e a sociedade. A distinção entre calor extremo pontual e onda de calor é fundamental para que a população compreenda a gravidade dos avisos de risco, especialmente para grupos vulneráveis. A persistência do calor, mais do que o pico térmico diário, é o fator que dita a resiliência das cidades.

À medida que o aquecimento global altera as médias históricas utilizadas no cálculo dos percentis, o debate sobre a atualização desses dados de referência torna-se inevitável. Observar como a AEMET ajustará seus protocolos frente a verões sucessivamente mais longos será essencial para monitorar a evolução climática na Europa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka