A maneira como interagimos com a tecnologia está em plena mutação. Steve Jobs, ao apresentar o iPhone em 2007, descreveu três produtos revolucionários em um: um iPod com tela sensível ao toque, um telefone celular e um dispositivo de comunicação pela internet. Naquela época, a capacidade de um "dispositivo de comunicação pela internet" era tão inovadora que o público mal compreendia seu alcance. Hoje, em 2026, a mensagem é clara: as interfaces de conversação, como chatbots, e futuramente interfaces naturais, serão o meio primário de comunicação com a Inteligência Artificial. A premissa de que programaremos ou mesmo usaremos computadores está cedendo lugar à ideia de que a IA os utilizará em nosso lugar. A era da interface de usuário pré-construída, "escreva uma vez, rode em qualquer lugar", está morrendo.

A Evolução das Interfaces: De Apps a Mensagens e Agentes

Em 2014, a mensagem escrita foi identificada como o "killer app" dos smartphones, um momento oportuno que precedeu a aquisição do WhatsApp pelo Facebook. A tese era que, embora os telefones tenham começado como dispositivos de informação, o uso mais impactante era intrinsecamente humano: a comunicação constante. Se o telefone fixo permitia comunicação em tempo real e a web, comunicação passiva, as mensagens possibilitaram uma interação contínua. A aquisição do WhatsApp pelo Facebook, no entanto, foi vista por alguns como um passo aquém da ambição, especialmente quando comparada ao lançamento do Facebook Home, que visava transformar o telefone em um "dispositivo Facebook". Mark Zuckerberg acreditava que as pessoas, e não os aplicativos, eram o centro do mundo, uma visão que gerou discordância. A realidade, segundo a análise, é que os smartphones prosperam por realizar uma vasta gama de "jobs to be done" (tarefas a serem realizadas) para mais pessoas em mais lugares do que qualquer outra tecnologia anterior.

Agentes de IA: Acesso ao Computador e a Criação de UI Sob Demanda

A próxima fronteira na interação com a IA não são apenas modelos de linguagem, mas sim agentes que possuem acesso a um computador. A ideia de que a IA não substituiria computadores, mas os operaria, ganhou força com a adição de plugins ao ChatGPT em 2023, permitindo que ele executasse tarefas computacionais. A verdadeira revolução reside em fornecer a esses agentes um "computador para o agente", uma máquina virtual com recursos dedicados. Essa abordagem, exemplificada pelo lançamento do Muse, que provisiona usuários com máquinas virtuais, permite que agentes executem tarefas complexas e criem interfaces de usuário personalizadas sob demanda. A capacidade de um agente organizar receitas salvas no Instagram, por exemplo, demonstra o potencial de gerar aplicativos específicos para necessidades individuais, ultrapassando a necessidade de gerenciar centenas de aplicativos genéricos.

O Poder da Agregação: De Plataformas a Agentes como Gatekeepers

A história da tecnologia tem sido marcada por ciclos de agregação. Plataformas como o Windows e agregadores como o Facebook concentraram poder ao controlar o acesso à demanda. A ascensão dos agentes de IA representa a próxima onda de agregação. Empresas como Meta e Microsoft estão posicionando seus agentes como a interface principal para todas as interações digitais. O Copilot da Microsoft, com suas capacidades de chat, codificação e agentes autônomos, visa ser um "novo sistema operacional para o trabalho". Da mesma forma, o Muse busca ser um "computador para o agente", permitindo que ele execute tarefas e crie interfaces personalizadas. O controle sobre esses agentes, que terão acesso a dados e contextos pessoais extensos, conferirá a eles um poder sem precedentes, tornando-os os gatekeepers da demanda e do desejo do usuário. A escassez se move da descoberta para a inspiração, com os agentes orquestrando as ferramentas necessárias para realizar tarefas.

Implicações e o Futuro da Interação Digital

A transição de um ecossistema centrado em aplicativos para um centrado em agentes levanta questões sobre o futuro da interação digital. Enquanto muitos ainda não percebem a mudança iminente, a tendência é clara: os usuários buscarão o caminho mais direto para realizar suas tarefas. Interfaces empresariais arcaicas, que dependiam de APIs limitadas, se tornarão obsoletas diante da capacidade dos agentes de interagir diretamente com sistemas. Empresas como a Salesforce já buscam capitalizar essa mudança, integrando-se como plugins para agentes. A batalha principal será pelo controle do agente que os usuários escolherão, pois a personalização e o contexto acumulado por um agente o tornam extremamente valioso e difícil de substituir. Meta e Microsoft, com sua vasta distribuição e experiência, estão bem posicionadas para liderar essa corrida, moldando o futuro da interação digital de maneiras que podem se concretizar mais rapidamente do que o esperado.

A tese central é que os agentes de IA não são apenas uma nova ferramenta, mas a infraestrutura que permitirá a criação de interfaces e a execução de tarefas de forma totalmente personalizada e sob demanda. Essa mudança promete não apenas otimizar a experiência do usuário, mas também concentrar um poder significativo nas mãos das empresas que conseguirem dominar a arquitetura dos agentes e a agregação de valor que eles proporcionam. A era dos aplicativos como fim em si mesmos está terminando; eles se tornam meros fornecedores para a nova orquestração dos agentes. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Stratechery