A planta de um apartamento de dois quartos é quase um roteiro social pré-escrito. O quarto maior para os pais, o menor para os filhos, a sala como espaço de convívio. Essa configuração, replicada à exaustão nos centros urbanos globais, parte de uma premissa cada vez mais frágil: a estabilidade da família nuclear como unidade central da sociedade. O problema é que as relações humanas são muito mais fluidas que o concreto armado. Um casal se separa, um parente idoso precisa de cuidados, amigos decidem criar um filho juntos. As paredes permanecem, mas os laços se reconfiguram.
Uma análise da publicação especializada Designboom compila uma série de projetos arquitetônicos que desafiam essa rigidez. A tese central é que a arquitetura pode e deve antecipar a mudança, em vez de aprisionar seus ocupantes em modelos ultrapassados. A questão não é abolir quartos ou cozinhas, mas repensar a quem eles pertencem e como se conectam ao longo do tempo. O movimento sugere uma mudança de paradigma: de projetar para uma família-tipo para projetar para a própria dinâmica das relações.
O fantasma da família na planta baixa
A hegemonia do apartamento familiar não é acidental; é um projeto com história. Como aponta a reportagem, padrões habitacionais na Inglaterra do pós-guerra e a fórmula “nLDK” (número de quartos + sala de estar, jantar e cozinha) no Japão ajudaram a consolidar um modelo de moradia para a classe média, com papéis e espaços bem definidos. Essa padronização transformou uma estrutura social específica — o casal heterossexual com filhos — em um padrão universal e supostamente neutro, inscrito diretamente na planta baixa.
Críticas a essa visão não são novas. Nos anos 1980, o coletivo britânico Matrix Feminist Design Co-operative já expunha como o design das casas atribuía papéis de gênero e hierarquias familiares, apresentando-os como algo natural. O que mudou é a escala e a diversidade das soluções propostas hoje. A familiaridade desses layouts é exatamente o que os torna dignos de escrutínio. Eles parecem normais porque foram normalizados, mas já não refletem a complexidade de como as pessoas vivem.
Entre a privacidade e a conexão
Os novos projetos exploram um espectro de soluções entre a total independência e a fusão doméstica completa. Em Londres, o escritório Apparata projetou o “A House for Artists”, onde uma simples porta dupla na parede entre as salas de estar de apartamentos vizinhos permite que unidades independentes se conectem para dividir o cuidado com crianças ou criar um espaço de trabalho conjunto. É um gesto quase banal, mas de profundo impacto na dinâmica comunitária.
Outras abordagens são mais radicais. Em Berlim, o projeto Kufu 142, do escritório June14, cria zonas de sobreposição entre apartamentos, onde um cômodo pode ser “emprestado” a um vizinho conforme as necessidades mudam. A arquiteta japonesa Kazuyo Sejima, do SANAA, já questionava essa lógica no fim dos anos 90. Em seu projeto Gifu Kitagata, ela trata os cômodos como unidades básicas que podem ser combinadas em arranjos diversos, criando lares com diferentes relações entre o privado e o compartilhado. A flexibilidade aqui não é um sofá-cama, mas a própria identidade do espaço que se torna negociável.
Essas experimentações reconhecem que as estruturas familiares contemporâneas — de pais solteiros a “famílias escolhidas”, como as da cultura ballroom — demandam uma arquitetura própria. Não se trata de impor o compartilhamento, mas de oferecer um leque mais rico de opções entre a privacidade e a conexão. A lição desses projetos é que um lar pode ser profundamente interdependente sem se tornar uma unidade doméstica indiferenciada. A arquitetura, enfim, começa a entender que uma porta fechada é tão importante quanto a possibilidade de abri-la para o vizinho.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





