O Bitcoin iniciou o mês de junho sob forte pressão vendedora, rompendo a barreira psicológica de US$ 70 mil e atingindo o menor patamar de preço desde a primeira semana de abril. Após encerrar maio com uma desvalorização de 3,5%, a criptomoeda aprofundou as perdas, sendo negociada a US$ 67.700 na última terça-feira, o que representa um acumulado de queda de 22% no ano, segundo dados acompanhados pela InfoMoney.

Este movimento de retração reflete uma combinação de fatores técnicos e macroeconômicos que redefiniram o apetite ao risco dos investidores. A análise do cenário atual sugere que a confiança do mercado, que sustentou a alta do ativo nos primeiros meses de 2026, enfrenta agora um teste de resistência diante de um ambiente de juros globais mais altos e incertezas geopolíticas persistentes.

O esgotamento do fluxo nos ETFs

Um dos pilares que sustentaram o Bitcoin nos últimos meses, os ETFs listados nos Estados Unidos, atravessa seu período mais desafiador desde o lançamento em janeiro de 2024. Segundo estimativas do JPMorgan, o mercado registrou saídas líquidas em 11 sessões consecutivas a partir de 15 de maio, totalizando um volume de aproximadamente US$ 3,45 bilhões em resgates.

Essa sequência de saídas supera o recorde anterior de fevereiro de 2025, indicando uma mudança de postura por parte dos investidores institucionais. A BlackRock, por meio de seu fundo IBIT, concentrou a maior parte dessa pressão vendedora, o que sinaliza uma reavaliação de portfólios diante de um cenário onde o custo de oportunidade, impulsionado pelas taxas de juros, torna ativos de risco menos atraentes.

O gatilho da Strategy e o impacto psicológico

A venda de 32 Bitcoins pela Strategy, entre 26 e 31 de maio, atuou como um catalisador para a volatilidade, apesar da insignificância do volume frente às reservas da companhia. A operação, realizada para cobrir obrigações financeiras com acionistas preferenciais, serviu como um lembrete de que tesourarias corporativas estão sujeitas a pressões de liquidez que podem forçar vendas, mesmo em empresas focadas na acumulação do ativo.

Analistas de mercado, como Tom Lee, da Bitmine, pontuam que o movimento tem um peso mais psicológico do que fundamental. O receio de que outras empresas sigam o mesmo caminho, caso o mercado de capitais se torne mais restritivo, gera um efeito de long squeeze, onde posições alavancadas são liquidadas à medida que o preço perde suportes técnicos fundamentais, como o nível de US$ 72 mil.

Perspectivas para o ecossistema e o Ethereum

As implicações deste momento se estendem para além do Bitcoin, com gestores observando uma migração de fluxo para o Ethereum. O Standard Chartered aponta que o modelo de tesouraria baseado em Bitcoin, que depende estritamente da valorização do preço, contrasta com a possibilidade de gerar renda passiva via staking no Ethereum, o que reduz a necessidade de liquidação de posições em momentos de baixa.

Para investidores, a questão central reside em identificar se a atual correção é uma oportunidade de entrada ou um sinal de esgotamento da demanda. Enquanto detentores de longo prazo continuam acumulando, a desaceleração na entrada de capital via ETFs sugere que o mercado pode entrar em uma fase de consolidação lateral antes de buscar novos patamares de preço.

O que observar nas próximas semanas

A incerteza sobre a política monetária do Federal Reserve, agravada pela alta do petróleo e tensões no Oriente Médio, permanece como o principal fator de risco para os próximos dias. A capacidade do mercado em absorver as vendas institucionais sem quebrar novos suportes, como a faixa de US$ 65 mil a US$ 68 mil, será determinante para definir a tendência de curto prazo.

O mercado aguarda agora por novos catalisadores que possam reverter o sentimento negativo. A estabilização dos fluxos nos ETFs será o indicador mais claro de que o apetite ao risco está retornando, enquanto a correlação com o mercado de ações tradicional continuará a ser monitorada de perto por gestores globais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney — Onde Investir