A artista visual Carrie Schneider apresentou na 61ª Bienal de Veneza uma instalação que redefine as escalas da fotografia contemporânea. Intitulada 'First Living Woman' (2026), a obra é descrita como a maior fotografia cromogênica analógica já produzida, ocupando o pavilhão do Arsenale com três fileiras sinuosas que, somadas, atingem um quilômetro de extensão. A peça é o destaque da exposição 'In Minor Keys', curada por Koyo Kouoh, e estabelece um diálogo direto com o filme 'La Jetée' (1962), do cineasta Chris Marker.
O trabalho de Schneider parte de um momento específico do clássico de ficção científica: o instante em que a atriz Hélène Châtelain, que interpreta a protagonista no filme, pisca os olhos. Esse frame, que marca a transição da estaticidade fotográfica para o movimento cinematográfico, foi reprocessado pela artista em seu estúdio no Hudson Valley. Utilizando uma câmera adaptada do tamanho de um cômodo, Schneider expôs frames retirados de um iPhone para rolos gigantes de papel Fujifilm, criando uma monumentalidade que contrasta com a natureza efêmera da imagem original.
A arqueologia da imagem em movimento
A escolha de 'La Jetée' como base para a instalação de Schneider não é casual. O filme de Marker é notório por ser composto quase inteiramente de fotografias estáticas, com exceção de breves segundos de filmagem em 16mm. Ao extrair esse momento de vitalidade e transformá-lo em uma série de impressões físicas, a artista explora a tensão entre o passado imutável e a fantasia de reanimar a memória através da tecnologia.
Historicamente, a obra de Schneider se insere em uma investigação sobre a face feminina como local de revelação afetiva. Diferente de seus projetos anteriores, que focavam em figuras como Romy Schneider ou Mariah Carey, o uso de Hélène Châtelain busca um resgate menos ligado ao espetáculo e mais focado na iconografia da saudade. A instalação funciona, portanto, como um laboratório onde a criação e a memória se tornam indistinguíveis, utilizando o suporte analógico para ancorar uma imagem que, no ambiente digital, seria apenas mais um fragmento descartável.
Mecanismos de resistência analógica
O processo técnico por trás de 'First Living Woman' revela uma postura de resistência diante da homogeneização digital. Como nenhum laboratório nos Estados Unidos aceitou o desafio de imprimir as dimensões colossais da obra, Schneider precisou enviar os rolos para processamento em Viena. O resultado final é uma estrutura que, embora utilize tecnologia moderna de captura, depende de operações analógicas como pintura, perfuração e colagem, conferindo à peça uma textura tátil que desafia a tela plana e lisa dos dispositivos contemporâneos.
Essa materialidade é reforçada pela exibição simultânea de uma versão em filme 16mm na David Peter Francis Gallery, em Nova York. Ao forçar o espectador a lidar com a fisicalidade do papel e o volume da instalação, Schneider critica a forma como consumimos imagens hoje: em telas pequenas, pausáveis e infinitamente replicáveis. A obra atua como um antídoto, exigindo uma presença física que o ambiente virtual, por definição, tenta eliminar.
Implicações para a arte e o espectador
A monumentalidade da instalação, contudo, evita o erro de se tornar mera publicidade. Ao contrário da estética de outdoor, a obra de Schneider mantém uma sensibilidade quase artesanal, com a imagem de Châtelain surgindo entre dobras, fitas e marcas de manipulação. A curadoria da Bienal, ao inserir este trabalho em uma mostra que busca caminhos para o repouso e a cura em um mundo marcado por escombros, confere à imagem um papel de talismã contra a escuridão.
Para o mercado de arte, a obra levanta questões sobre o valor da escala na era da reprodução digital. A capacidade de transformar um frame de YouTube em um objeto arquitetônico sugere que a relevância artística reside menos na tecnologia utilizada e mais na capacidade de conferir peso material a fantasias coletivas. A obra de Schneider dialoga com o cenário atual, onde as crises globais fazem da ficção científica de Marker algo assustadoramente próximo da realidade cotidiana.
O futuro da imagem monumental
O que permanece em aberto é como a fotografia, enquanto meio, continuará a negociar seu espaço entre a nostalgia do analógico e a onipresença do digital. A instalação de Schneider não oferece uma resposta definitiva, mas propõe um novo alfabeto visual que privilegia a densidade sobre a rapidez.
Observar a evolução desse trabalho nos próximos anos será fundamental para entender se a monumentalidade analógica pode se sustentar como uma forma de resistência cultural ou se ela se tornará apenas uma exceção luxuosa em um ecossistema dominado pela imagem sintética. A Bienal de Veneza, ao abrigar este experimento, reafirma seu papel como o espaço onde a arte ainda pode ditar o ritmo da reflexão sobre o nosso tempo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Aperture





