A produção de “Dark Horse”, filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se o epicentro de uma investigação que entrelaça política, emendas parlamentares e uma complexa estrutura financeira. Anotações em papel, apreendidas pela Polícia Civil de São Paulo na residência da empresária Karina Gama, apontam para um “Mario” como sócio da produtora Go UP Entertainment, responsável pela obra. Para os investigadores, a referência é ao deputado federal Mario Frias (PL-RJ).
O caso, que agora está sob a relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, apura se parte de uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões, indicada por Frias, foi desviada para financiar o longa. Segundo o inquérito, ao menos R$ 750 mil teriam seguido esse caminho. A defesa de Gama afirma que a entrada de um sócio seria uma operação lícita, mas a suspeita das autoridades é que a estrutura sirva para ocultar a origem e o destino de verbas públicas.
A Rota do Dinheiro
Os manuscritos encontrados detalham um organograma financeiro que sugere um esquema de triangulação. O esboço conecta uma “Go Up BR” a uma “Go Up USA”, com uma seta apontando para a anotação “sócio Mario” a partir da entidade americana. A menção ao IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) no diagrama reforça a hipótese de remessas ao exterior, um mecanismo que pode adicionar camadas de complexidade e opacidade às transações.
A teia financeira não para por aí. A investigação também examina a conexão com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), representado por Gama, que detinha contratos de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo. Adicionalmente, o filme recebeu um aporte de R$ 64 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, através de um fundo sediado nos Estados Unidos e ligado a figuras próximas à família Bolsonaro.
Cultura como Veículo Político
O que emerge da investigação não é apenas uma suspeita de desvio de verbas, mas o retrato de como projetos culturais podem ser instrumentalizados como veículos para operações financeiras e articulações políticas. A participação de um deputado, de um banqueiro e de intermediários com conexões internacionais eleva o caso para além de uma simples fraude, tocando na intersecção entre a produção de narrativas e o exercício do poder.
A apuração, que agora contará com relatórios de inteligência do Coaf, busca mapear o fluxo exato dos recursos. O envolvimento de figuras proeminentes e a estrutura transnacional sugerem uma operação sofisticada, cujo objetivo final — seja ele puramente financeiro, político ou ambos — ainda está por ser totalmente esclarecido.
O desfecho do caso “Dark Horse” pode estabelecer um precedente importante sobre a fiscalização de emendas parlamentares e o financiamento de projetos culturais com viés político explícito. A fronteira entre mecenato, investimento e manobra política parece cada vez mais tênue, e a Justiça agora se debruça para definir seus contornos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





