Dave Checketts, veterano com passagens pela presidência do New York Knicks e do Utah Jazz, classificou o Real Salt Lake, clube que cofundou em 2005, como o pior investimento de sua trajetória profissional. Em entrevista ao podcast Portfolio Players, o executivo detalhou os desafios operacionais enfrentados por ligas emergentes que buscam escalar sua receita em um mercado esportivo altamente competitivo.
A declaração de Checketts lança luz sobre as dificuldades estruturais que times da Major League Soccer (MLS) enfrentaram para alcançar o equilíbrio financeiro nas últimas duas décadas. Segundo reportagem do Front Office Sports, o investidor aponta que, embora a infraestrutura tenha evoluído, a transição para um fluxo de caixa positivo permanece um desafio complexo para os proprietários de franquias.
O desafio da escala e da infraestrutura
Nos primeiros anos de existência do Real Salt Lake, o clube operava no Rice-Eccles Stadium, uma arena de futebol americano universitário com capacidade para 45 mil espectadores. A baixa taxa de ocupação, que girava em torno de 16 mil torcedores, criava uma percepção negativa de marca que dificultava a atração de patrocinadores e o engajamento local. O cenário só mudou de patamar após a inauguração do America First Field, em 2008, que permitiu uma operação mais eficiente e lotação constante.
A análise de Checketts sugere que, mesmo com a modernização das arenas, a estabilidade financeira das equipes da MLS ainda é volátil. O executivo ressalta que o sucesso de uma franquia depende diretamente de contratos de mídia robustos, um componente que, historicamente, demorou a se consolidar para o futebol nos Estados Unidos em comparação com ligas estabelecidas como a NFL ou a NBA.
A preferência do consumidor pelo futebol europeu
Um dos pontos centrais da crítica de Checketts reside na dificuldade da MLS em capturar a lealdade do torcedor americano, que ainda prioriza o futebol europeu. O investidor compara o alcance do acordo da liga com a Apple TV ao peso da Premier League, argumentando que, ao serem questionados sobre seus times de preferência, os americanos tendem a citar clubes como o Arsenal em vez de equipes locais como o Chicago Fire.
Essa preferência cultural impacta diretamente a precificação dos direitos de transmissão e a percepção de valor da liga. Enquanto jogos da Premier League registram audiências expressivas na televisão americana, a MLS enfrenta o desafio constante de converter espectadores ocasionais em torcedores fiéis que sustentem a economia dos clubes a longo prazo, independentemente da presença de estrelas globais como Lionel Messi.
Tensões no mercado de franquias
O histórico de propriedade do Real Salt Lake reflete a instabilidade do setor. Após a saída de Checketts em 2013, o clube passou por diversas mãos, incluindo o período sob Dell Loy Hansen e a venda posterior para o consórcio liderado por Ryan Smith e David Blitzer. Em 2025, a equipe foi adquirida por Gail Miller em uma transação avaliada em 600 milhões de dólares, evidenciando a valorização dos ativos esportivos, apesar das margens operacionais apertadas citadas pelos investidores.
A trajetória do clube em Salt Lake serve como um estudo de caso sobre a evolução do valuation das franquias esportivas. Se, por um lado, o valor de revenda dos times disparou, a pressão para gerar receitas operacionais que justifiquem tais cifras continua sendo o principal obstáculo para investidores que buscam rentabilidade imediata em um ecossistema que ainda prioriza o crescimento de longo prazo.
O futuro da rentabilidade na MLS
O que permanece incerto é se a estratégia de expansão da liga e o aumento da exposição midiática serão suficientes para transformar clubes em ativos de fluxo de caixa positivo. A dependência de acordos de transmissão e a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura e elenco colocam os proprietários em uma posição de constante exposição ao risco financeiro.
O mercado observará atentamente se a estratégia de crescimento da MLS conseguirá, nos próximos ciclos, mitigar a disparidade de interesse entre o futebol local e as ligas europeias. O desafio para a próxima década será consolidar a marca da liga como um produto de entretenimento autossustentável.
As declarações de Checketts reforçam que o otimismo do mercado de capitais em relação ao esporte nos EUA nem sempre reflete a realidade operacional vivida pelos gestores de clubes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Front Office Sports





