“Fui a uma festa de lançamento de livro na casa de Adrienne Arsh. A ‘Super A list’ de Washington DC estava lá”. A anotação, de julho de 2021, é de Anthony Fauci, o rosto da resposta americana à pandemia. Enquanto o mundo vivia sob restrições, o principal infectologista do país navegava por jantares, brunches e galas, registrando tudo em um diário pessoal que ele, inexplicavelmente, salvou em um servidor do governo. O resultado, como detalhado em uma análise da revista The Atlantic, é um documento fascinante, que agora vem a público.
Mais do que um simples relato, os diários são uma peça de antropologia sobre a bolha de poder de Washington. Eles confirmam a suspeita de que, mesmo durante uma crise sanitária global sem precedentes, a principal preocupação da elite da capital americana era com status, acesso e autoafirmação. A leitura dos escritos de Fauci não é sobre a ciência da covid-19, mas sobre a sociologia da fama em um momento em que as taxas de mortalidade disparavam pelo país.
A anatomia da vaidade
Os diários revelam um homem progressivamente inebriado pela própria adulação. Fauci anota, com um misto de surpresa e orgulho, a existência de uma cerveja com seu nome, a produção em massa de seus bonecos “bobblehead” na China e petições para elegê-lo o “Homem Mais Sexy do Mundo”. Ele descreve jantares com o jornalista Jake Tapper (“construindo amizade”), uma festa na mansão de Jeff Bezos e um evento na casa do embaixador da França. A sensação de pertencimento a este clube exclusivo é palpável. “O típico ‘A list’ de Washington estava lá”, ele escreve sobre um brunch em homenagem a Christine Lagarde, então presidente do Banco Central Europeu.
Em um trecho de novembro de 2021, Fauci descreve sua reação ao ser assediado em uma festa no Cafe Milano. “Fui totalmente cercado a noite toda por pessoas querendo dizer olá, apertar minhas mãos e tirar fotos comigo (...) Embora alguns pensem que é ótimo ser tratado como Elvis Presley, foi realmente muito enervante”. A contradição é gritante: o principal defensor do distanciamento social relata, quase como um fardo, a popularidade que o impedia de manter distância em eventos sociais que ele escolheu frequentar. O documento é um estudo de caso sobre a dissonância cognitiva que o poder e a fama podem gerar.
O cientista e a celebridade
O fascínio de Fauci não se limitava ao círculo político. Seus diários detalham uma amizade crescente, por texto e telefone, com a cantora Joan Baez. Após meses de conversas, eles finalmente se encontram. “Nossa amizade foi cimentada (...) ficou claro que éramos, como eu disse, ‘feitos um para o outro’”, ele anota, em um tom quase adolescente. Em outra passagem, relata uma ligação com Barbra Streisand, a quem ensina a usar a assistente virtual Alexa para tocar suas próprias músicas. “Ela começou a rir e absolutamente amou”.
As anotações também revelam a percepção de sua própria influência para além da saúde pública. “Fiz comentários favoráveis hoje na CNBC sobre vacinas (...) e o mercado de ações subiu 3%”, escreve em junho de 2020. Em outro momento, registra uma conversa com o general Mark Milley, que teria dito: “a única pessoa em Washington apanhando mais do que eu é você”. O diário de Fauci não é o registro de um servidor público abnegado, mas o de um homem que se tornou o personagem principal de sua própria narrativa épica, um protagonista no centro do universo político e cultural americano.
No fim, os escritos de Fauci são menos um veredito sobre seu caráter e mais um espelho da cultura que o elevou a esse status. A questão que permanece não é apenas quem era Anthony Fauci por trás das câmeras, mas o que a sua ascensão a ícone pop diz sobre a natureza do poder, da mídia e da sociedade que consome seus heróis com a mesma intensidade com que depois os descarta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas




