O número de despejos realizados na Espanha entre 1 de janeiro e 31 de março de 2026 registrou uma queda acentuada de 45,4% em comparação ao mesmo período de 2025, totalizando 4.005 casos. Segundo o relatório divulgado pelo Conselho Geral do Poder Judicial (CGPJ), o declínio abrangeu tanto os processos derivados de execuções hipotecárias quanto aqueles motivados pelo inadimplemento de aluguéis.

Este cenário reflete uma mudança quantitativa nos fluxos judiciais do país, embora a análise detalhada dos dados revele contrastes importantes. Enquanto os despejos por falta de pagamento de aluguel — que representam a maior fatia do total — caíram 53,9%, o volume de novas execuções hipotecárias iniciadas no mesmo período apresentou um crescimento interanual de 17,5%.

Dinâmica regional e o peso do mercado de aluguéis

A distribuição geográfica dos despejos mostra uma concentração significativa em regiões com alta pressão imobiliária. A Catalunha lidera o ranking nacional, sendo responsável por 23% do total de lançamentos praticados no primeiro trimestre, seguida pela Comunidade Valenciana, Andaluzia e Madrid. A relevância da Catalunha é ainda mais evidente quando se observa o número de novas execuções hipotecárias, onde a região responde por mais de 36% dos registros nacionais.

O comportamento dos despejos por aluguel, que totalizaram 2.600 casos, sugere que as variáveis que impactam a estabilidade dos inquilinos possuem uma dinâmica distinta daquelas que afetam proprietários com dívidas hipotecárias. A predominância de despejos por aluguel no total geral indica que a crise de moradia na Espanha permanece ancorada, sobretudo, na dificuldade de acesso e manutenção de contratos de locação urbana.

O paradoxo das execuções hipotecárias

É fundamental notar que a redução nos despejos efetivados não se traduz, necessariamente, em uma melhora absoluta nas condições de crédito das famílias. O aumento de 17,5% nas novas execuções hipotecárias, totalizando 7.194 casos no trimestre, aponta para uma pressão crescente sobre o sistema financeiro e os mutuários. Esse descompasso entre o número de despejos realizados e o volume de processos iniciados sugere um gargalo ou uma mudança na velocidade de processamento do Judiciário.

Além disso, o relatório do CGPJ destaca que o número de lançamentos recebidos pelos serviços comuns de notificação e embargos cresceu 19,2%, alcançando 16.167 solicitações. Esse indicador, embora não represente o resultado final dos processos, serve como um termômetro da litigiosidade no mercado imobiliário e demonstra que a demanda por intervenção judicial para a retomada de imóveis permanece elevada.

Ocupações ilegais e o cenário social

O levantamento também trouxe dados sobre a ocupação ilegal de moradias, um tema de constante debate no cenário político espanhol. Houve uma redução de 22,3% nas demandas por juízos verbais possessórios, totalizando 460 novos casos. A Andaluzia, seguida pela Catalunha e Comunidade Valenciana, registrou o maior volume dessas ações, que se referem a casos onde os proprietários são pessoas físicas ou entidades sociais.

A leitura aqui é que, apesar da queda estatística, a ocupação ilegal continua sendo um ponto de fricção relevante em regiões metropolitanas. A eficácia das políticas públicas em mitigar esses conflitos sem recorrer à via judicial permanece como um dos grandes desafios estruturais para as autoridades locais e nacionais no curto prazo.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a sustentabilidade dessa queda nos despejos efetivados diante do aumento das execuções hipotecárias iniciadas. Se o volume de novas demandas judiciais continuar a crescer, o sistema poderá enfrentar uma pressão maior nos próximos trimestres, testando a capacidade de mediação entre credores e devedores.

Observar a evolução desses dados nos próximos relatórios será crucial para entender se estamos diante de uma tendência estrutural de arrefecimento ou apenas de um atraso temporário na execução das ordens judiciais. A estabilidade do mercado imobiliário espanhol depende, em grande medida, da capacidade do setor de absorver essas tensões sem elevar o custo social do crédito.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España