A cobertura onde o ex-governador Cláudio Castro (PL) reside atualmente, alvo de mandado de busca e apreensão pela Polícia Federal nesta terça-feira, é propriedade de uma empresa controlada por Mauro Farias, ex-secretário de Transformação Digital do governo fluminense. De acordo com registros em cartório, a J3 Real Estate Participações, aberta por Farias em abril de 2023, adquiriu o imóvel no condomínio Península, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, por R$ 3,5 milhões, menos de dois meses após sua constituição.
A transação imobiliária levanta questionamentos sobre a relação entre o ex-gestor público e o ex-governador, especialmente diante do histórico de alinhamento entre ambos. Mauro Farias comandou a Secretaria de Transformação Digital, pasta que geriu orçamentos superiores a R$ 1 bilhão durante sua gestão, antes de deixar o cargo em dezembro de 2024. A defesa de Castro afirma que o imóvel é alugado, embora não tenha apresentado o contrato de locação ou esclarecido os valores pagos.
Conexões entre gestão e patrimônio
A proximidade entre os envolvidos extrapola o vínculo administrativo. Mauro Farias é irmão de Rafael Thompson de Farias, ex-secretário de Governo de Castro. Ambos foram sócios da P5 Soluções, empresa que, segundo o Ministério Público Eleitoral, teria recebido recursos de forma ilícita provenientes da campanha eleitoral do ex-governador em 2022. O órgão pediu a reprovação das contas da campanha, apontando que fornecedores destinaram R$ 2,6 milhões para a empresa, verba que teria sido desviada para finalidades não comprovadas.
O imóvel em questão, uma cobertura com piscina e mais de 300 metros quadrados, situa-se em uma área nobre da Barra da Tijuca. Em plataformas de mercado, unidades com características similares possuem aluguéis que variam entre R$ 12 mil e R$ 30 mil mensais, além de taxas de condomínio elevadas. A falta de transparência sobre os termos da locação e a origem do patrimônio da J3 Real Estate são elementos centrais na apuração das autoridades.
Mecanismos de influência e o caso Banco Master
A operação da Polícia Federal que atingiu o endereço de Castro está inserida no contexto das investigações sobre supostas irregularidades envolvendo o Banco Master. Durante o mandato do ex-governador, o Rioprevidência realizou aportes da ordem de R$ 3,7 bilhões na instituição financeira de Daniel Vorcaro. A investigação busca determinar se houve favorecimento indevido em troca de benefícios pessoais ou políticos para o grupo governista.
A dinâmica observada sugere uma intersecção entre o uso da máquina pública e a estruturação de ativos imobiliários por aliados. O padrão de ocupação de imóveis de alto valor, registrados em nome de pessoas próximas ou empresas de ex-colaboradores, tem sido um ponto de atenção recorrente para órgãos de controle que monitoram o uso de recursos públicos no estado do Rio de Janeiro.
Tensões políticas e o futuro do PL
As investigações impactam diretamente o projeto político de Cláudio Castro para 2026. Dentro do Partido Liberal (PL), a crise deflagrada pelas operações policiais tem gerado temores sobre o desgaste da imagem da sigla no estado. Deputados estaduais avaliam que o acúmulo de denúncias inviabiliza articulações eleitorais futuras e ameaça a coesão das pré-campanhas da legenda no Rio.
Para o ecossistema político, o caso coloca em xeque a governança sobre contratos e nomeações. A transição de secretários para o setor privado, seguida pela aquisição de bens que servem de moradia a autoridades, impõe um desafio de fiscalização para o Ministério Público e para os órgãos de controle externo. A percepção de conflito de interesses é um dos principais danos reputacionais para a gestão que se encerrou.
Incertezas sobre o rito das investigações
O que permanece em aberto é a extensão da rede de propriedades vinculadas aos ex-secretários e se há outros imóveis ocupados por agentes públicos sob condições similares. A defesa de Castro mantém a tese de que os contatos com empresários foram estritamente institucionais, mas a materialidade das transações imobiliárias exige esclarecimentos adicionais por parte dos investigadores.
A evolução dos desdobramentos da Polícia Federal deve esclarecer se a J3 Real Estate serviu apenas como veículo de investimento ou se há evidências de ocultação de bens. O mercado imobiliário e os agentes políticos observam com cautela os próximos passos do inquérito, que pode revelar novas camadas sobre a gestão dos recursos do Rioprevidência e a movimentação financeira de figuras centrais do governo anterior.
A apuração segue em curso, enquanto a defesa busca desvincular a moradia do ex-governador de eventuais irregularidades cometidas pelos proprietários do imóvel. Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





