A Copa do Mundo de 2026 projeta uma receita entre US$ 11 bilhões e US$ 14 bilhões, consolidando o evento como um dos maiores ativos comerciais do planeta. No entanto, a estrutura financeira por trás dessa engrenagem revela uma assimetria profunda entre a entidade organizadora e os cofres públicos das cidades que abrigam as partidas. Segundo reportagem da Persuasion, o modelo de negócios da FIFA sob a gestão de Gianni Infantino evoluiu de subornos diretos para uma engenharia contratual que extrai o valor econômico local enquanto transfere os custos operacionais para os contribuintes.

A transição da era Sepp Blatter para a liderança atual marca uma mudança de paradigma. Se a gestão anterior era caracterizada por esquemas de corrupção que atraíram o escrutínio do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a atual administração foca na imposição de cláusulas draconianas. Essas exigências obrigam municípios a arcar com segurança, infraestrutura e isenções fiscais, sem que haja uma contrapartida proporcional em receitas de bilheteria ou licenciamento, que permanecem integralmente sob controle da federação.

A profissionalização da extração financeira

A gestão de Gianni Infantino é frequentemente descrita como a de um executivo agressivo que utiliza o prestígio do futebol como alavanca de negociação. Diferente dos esquemas de suborno do passado, o mecanismo atual baseia-se em contratos de adesão que forçam cidades a aceitarem condições unilaterais. Em Toronto, por exemplo, as estimativas iniciais de custo saltaram para cerca de US$ 380 milhões, um cenário que se repete em diversas localidades norte-americanas que buscam o status de sede.

A estratégia da FIFA inclui a criação de zonas de exclusividade comercial, onde apenas patrocinadores autorizados podem atuar, impedindo que o comércio local capture qualquer benefício econômico derivado do fluxo de torcedores. Essa prática de "limpeza de marca" é uma exigência contratual que obriga cidades a suspenderem leis locais de publicidade e comércio para favorecer os parceiros globais da entidade, criando um ambiente de exploração comercial intensiva.

O custo do subsídio público

O impacto financeiro nas contas públicas é agravado por isenções fiscais concedidas em diferentes jurisdições. Nos Estados Unidos, a concessão de status de caridade para as 48 seleções nacionais e a isenção de impostos sobre ingressos representam perdas milionárias para os tesouros locais. Em Atlanta e Miami, as estimativas de renúncia fiscal somam dezenas de milhões de dólares, enquanto o governo federal dos EUA assume a conta da segurança, estimada em centenas de milhões.

Essa dinâmica levanta questões sobre a viabilidade econômica do evento para as cidades anfitriãs. Ao exigir que os governos locais financiem a infraestrutura e a segurança enquanto a FIFA retém a totalidade das receitas de licenciamento e publicidade, a entidade opera com um risco próximo de zero. O modelo, portanto, não é de parceria, mas de transferência de riqueza pública para uma organização que, por ser uma entidade sem fins lucrativos sediada na Suíça, mantém sua própria carga tributária mínima.

Tensões entre espetáculo e governança

A tensão entre a qualidade do produto esportivo e a gestão administrativa da FIFA atinge um ponto crítico. Enquanto atletas como Lamine Yamal e veteranos como Lionel Messi elevam o nível técnico do futebol, a estrutura que sustenta o torneio permanece opaca e centralizada. A capacidade da FIFA de impor essas condições decorre do desejo inabalável das cidades em sediar o espetáculo, transformando o prestígio da Copa em um ativo que ignora a responsabilidade fiscal.

Para os stakeholders, o paralelo com outras grandes competições esportivas é inevitável. Contudo, a escala da FIFA confere uma margem de manobra superior. Reguladores e governos locais parecem ter pouca resistência diante da pressão exercida pelos organizadores, que utilizam a ameaça de retirar o evento como ferramenta de barganha. O resultado é um sistema onde o sucesso esportivo serve como cortina de fumaça para uma operação financeira altamente lucrativa.

Perspectivas de sustentabilidade

O futuro desse modelo de governança permanece incerto. A pressão por transparência e a crescente resistência de alguns conselhos municipais, que começam a questionar o retorno real sobre o investimento, sugerem que a tolerância dos governos pode ter um limite. A questão central é se o valor intangível de sediar uma Copa do Mundo continuará a justificar os custos financeiros cada vez mais elevados para os cofres públicos.

A monitoração das próximas negociações contratuais será essencial para entender se o poder de barganha da FIFA se manterá inalterado. O cenário aponta para uma possível reavaliação de como eventos de escala global são financiados e quais deveriam ser as responsabilidades compartilhadas entre organizadores e cidades. A história do futebol continuará a ser escrita em campo, mas a sustentabilidade do espetáculo depende agora de um equilíbrio financeiro que ainda parece distante.

A paixão pelo futebol, que move bilhões de espectadores, continua sendo o motor que permite a perpetuação dessa estrutura. Enquanto o espetáculo for capaz de eclipsar as controvérsias contratuais, a dinâmica de extração de valor tende a persistir, mantendo o impasse entre o valor cultural do esporte e a gestão corporativa da federação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion