O sol da Califórnia costuma incidir sobre o travertino branco do Getty Center com uma precisão quase geométrica, uma marca registrada do projeto original assinado por Richard Meier em 1997. No entanto, o fluxo de 1,4 milhão de visitantes anuais exige hoje uma infraestrutura que o desenho de Meier, embora esteticamente sublime, não previu plenamente. É neste cenário de transição que o Getty anunciou uma renovação profunda de sua sequência de chegada, envolvendo nomes de peso como Gehry Partners, WHY Architecture e o estúdio de paisagismo Olin. A intervenção é pontuada por uma cobertura de vidro paramétrica concebida por Frank Gehry, um gesto que dialoga com a topografia da colina e a agitação da 405 Freeway que serpenteia lá embaixo.

O encontro de dois mestres

A participação de Gehry confere ao projeto uma camada de significado histórico. Existe uma tensão inerente ao inserir a linguagem de Gehry — conhecida por suas formas orgânicas e desconstrutivistas — em um santuário de racionalismo como o Getty. Contudo, o projeto parece buscar uma síntese, utilizando a transparência do vidro para criar um portal que não compete com o campus, mas o anuncia. A colaboração com Kulapat Yantrasast, do WHY Architecture, responsável pela renovação do Welcome Hall e da melhoria na circulação, sugere uma abordagem cuidadosa, focada na experiência do pedestre contemporâneo, cada vez mais acostumado à conveniência dos aplicativos de transporte.

A mecânica da hospitalidade

Por trás da estética, há uma necessidade logística pragmática: o sistema de transporte atual tornou-se um gargalo. A Doppelmayr Group foi contratada para fabricar novos vagões, capazes de transportar cerca de 25 passageiros a mais por viagem, uma atualização que responde diretamente ao aumento da demanda turística. O projeto de Olin para o paisagismo busca suavizar a transição entre o caos urbano da rodovia e a serenidade do museu no topo da colina. A renovação não é apenas técnica; ela é um exercício de curadoria do espaço público, onde a segurança e a resiliência energética se tornam tão vitais quanto a preservação da integridade arquitetônica original.

O futuro do campus

O fechamento temporário programado para março do próximo ano, com reabertura prevista para a primavera de 2028, sinaliza o início de uma era de modernização estrutural. O Getty não está apenas consertando galerias ou sistemas mecânicos, mas reavaliando seu papel como uma instituição aberta à cidade. A pergunta que paira sobre o projeto é como o museu equilibrará sua identidade introspectiva com a necessidade de ser um marco visível e acessível. A obra de Meier, que definiu o skyline cultural de Los Angeles por quase três décadas, agora recebe o toque de seu contemporâneo, forjando um diálogo histórico entre dois gigantes da arquitetura americana.

Entre a tradição e o novo

O que permanece incerto é se este projeto será o único movimento de renovação da instituição na próxima década ou o precursor de uma transformação maior. O Getty Center sempre operou como uma ilha de calma, mas a modernização da entrada sugere uma vontade de se conectar mais profundamente com a metrópole que o cerca. Enquanto os guindastes se preparam para subir a colina, resta observar como a nova cobertura de vidro de Gehry filtrará a luz sobre os visitantes que, a partir de 2028, subirão a encosta em direção ao horizonte de LA.

O projeto de renovação deixa uma imagem persistente: a geometria de Gehry protegendo o início da jornada, enquanto o travertino de Meier aguarda, imperturbável, o retorno dos visitantes ao topo do mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen