A transição do ambiente acadêmico para o corporativo é frequentemente marcada por um choque cultural, especialmente para a Geração Z. Crescendo em um mundo digital e habituados a feedbacks instantâneos, esses jovens profissionais muitas vezes se deparam com um conjunto de regras não escritas que regem o sucesso no local de trabalho. Laura Massetti, coach de carreira com 15 anos de experiência liderando equipes, observa que essa geração não é despreparada, mas sim carente de treinamento explícito em habilidades interpessoais e de julgamento profissional.

Massetti destaca que, à medida que a inteligência artificial assume tarefas técnicas, as chamadas "soft skills" — como comunicação clara, bom senso e capacidade de execução — tornam-se o principal diferencial. A geração mais jovem, acostumada à gratificação instantânea das redes sociais, pode ter dificuldade em se adaptar ao ritmo de avaliações anuais e ao aprendizado gradual que o ambiente corporativo tradicional exige. A pandemia, ao reduzir interações presenciais, acentuou ainda mais essa lacuna, limitando as oportunidades de aprendizado "ombro a ombro" que antes eram comuns.

As habilidades que não estão no papel

Existem aspectos cruciais para o desempenho profissional que raramente aparecem em descrições de cargo ou avaliações formais. Massetti enumera a comunicação e clareza, a capacidade de priorização e julgamento, a diligência e confiabilidade, a presença profissional e credibilidade, a proatividade e responsabilidade, e a consciência organizacional como áreas de avaliação contínua. Ir além da competência técnica envolve entender quando usar cada ferramenta de comunicação — e-mail, Slack, ou uma conversa presencial — e como abordar figuras de autoridade. Um exemplo citado pela coach é o de um recém-contratado que enviou uma mensagem direta ao CEO via Slack para solicitar uma reunião, demonstrando desconhecimento sobre a hierarquia e os canais de comunicação apropriados na empresa.

O vestuário profissional é outro ponto de atenção. A coach relata uma experiência pessoal em que, por ter adotado um traje formal demais para um encontro em Miami, destoou do ambiente. A regra de ouro, segundo ela, é adequar-se ao contexto do cliente e da empresa. O objetivo é demonstrar ao gestor que se é confiável para apresentar uma imagem profissional e entregar resultados. Essa responsabilidade, no entanto, não recai apenas sobre o jovem profissional. Massetti ressalta que os gestores devem questionar o que não está sendo ensinado, em vez de apenas atribuir a falta de "entendimento" à inexperiência da nova geração.

O papel da IA e a necessidade de desenvolvimento humano

A inteligência artificial está redefinindo o cenário profissional, nivelando competências técnicas que antes serviam como um forte diferencial. Nesse contexto, as habilidades intrinsecamente humanas ganham destaque. A capacidade de articular ideias, persuadir interlocutores e demonstrar julgamento em situações complexas são atributos que a IA, por enquanto, não replica. Massetti enfatiza que a confiança é um fator determinante em suas decisões de contratação, e essa confiança é construída não apenas pelo conhecimento técnico, mas pela demonstração de maturidade profissional e habilidades de comunicação.

Programas de desenvolvimento que combinam treinamento online com simulações práticas, como o oferecido pela empresa de Massetti, são essenciais para preencher as lacunas deixadas pela formação tradicional. Ao simular cenários como o recebimento de feedback ou a apresentação de ideias a um conselho, os jovens profissionais adquirem experiências valiosas que, de outra forma, levariam anos para serem acumuladas. O desafio é capacitar essa geração para se destacar em um mercado onde a tecnologia uniformiza as capacidades técnicas, tornando as competências interpessoais e a inteligência emocional os verdadeiros catalisadores de sucesso.

Implicações para o futuro do trabalho

A crescente dependência de ferramentas digitais e a automação de tarefas levantam questões sobre como as futuras gerações desenvolverão a intuição e o discernimento necessários para navegar no ambiente corporativo. Se as oportunidades de aprendizado prático e interações face a face continuam a diminuir, as empresas precisarão investir mais em programas de mentoria e treinamento estruturado. A Geração Z, por sua vez, deve buscar ativamente oportunidades para desenvolver essas habilidades, compreendendo que o aprendizado contínuo transcende o domínio técnico e abrange a arte de se relacionar e executar no mundo profissional.

O cenário aponta para uma necessidade de adaptação mútua: empresas que oferecem um ambiente de aprendizado mais explícito e jovens profissionais que demonstram proatividade em adquirir competências comportamentais. A capacidade de "ler o ambiente" e de se comunicar efetivamente se tornam tão ou mais importantes quanto o conhecimento técnico, especialmente em um futuro onde a colaboração humano-máquina será a norma. A busca por esse equilíbrio definirá a trajetória de muitos talentos emergentes.

Ainda que a tecnologia avance e a IA assuma mais funções, a essência da interação humana no trabalho permanece. A capacidade de construir relacionamentos, de apresentar uma visão e de gerenciar expectativas são habilidades que exigem prática e orientação. A jornada de aprendizado, embora acelerada pela tecnologia, ainda demanda um componente humano insubstituível.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider