A confiança dos gestores de fundos que atuam na América Latina em relação ao mercado de ações brasileiro sofreu uma queda abrupta em abril. De acordo com o levantamento mensal realizado pelo Bank of America (BofA), a parcela de profissionais que projeta o Ibovespa acima dos 190 mil pontos até o final deste ano despencou de 66% para apenas 31% em apenas um mês.
Este movimento de retração não se limita às expectativas de preço do índice. O levantamento, que consultou 31 gestores responsáveis por cerca de US$ 115 bilhões em ativos, indica uma crescente preocupação com a qualidade dos resultados das empresas listadas. Aproximadamente 40% dos entrevistados agora preveem revisões para baixo nas estimativas de lucro para este ano, um aumento significativo em relação aos 29% observados na pesquisa do mês anterior.
O peso das incertezas eleitorais e externas
A cautela predominante no mercado reflete uma combinação de fatores internos e pressões globais. No cenário doméstico, a incerteza em torno das eleições de outubro ganhou destaque como um vetor de volatilidade. Atualmente, 60% dos gestores acreditam que o processo eleitoral deve intensificar as oscilações nos preços dos ativos a partir de agosto, um aumento de 20 pontos percentuais em relação à leitura anterior.
Simultaneamente, os riscos externos mantêm o apetite ao risco sob controle. A perspectiva de manutenção de juros elevados nos Estados Unidos, acompanhada pelo fortalecimento do dólar, é apontada como a principal ameaça ao fluxo de capital para o Brasil. Essa conjuntura tem forçado uma reprecificação das expectativas cambiais, com os gestores demonstrando maior ceticismo quanto a uma valorização do real no curto e médio prazo.
O dilema da política monetária
O horizonte para a taxa Selic também enfrenta um cenário de indefinição. A pesquisa do BofA destaca que a grande maioria dos participantes — cerca de 83% — avalia que as pressões geopolíticas e o cenário macroeconômico podem forçar o Comitê de Política Monetária (Copom) a desacelerar o ritmo de cortes nos juros. Esse percentual era de 77% no levantamento anterior, sinalizando um endurecimento na percepção de risco sobre a condução da política monetária.
Não há, contudo, consenso sobre o patamar final da taxa básica de juros para o encerramento deste ano. Enquanto 31% dos gestores projetam a Selic em 14,25% ao ano em dezembro, a maioria expressiva de 68% acredita que os juros não recuarão abaixo do patamar de 14% ao ano. Essa divergência reflete a dificuldade dos agentes em antecipar os próximos passos do Banco Central frente a variáveis tão voláteis.
Implicações para o investidor institucional
O cenário traçado pelos gestores sugere um ambiente operacional desafiador para o segundo semestre. Para os investidores, a leitura é de que a seletividade será a palavra de ordem, dado que a perspectiva de revisões negativas nos resultados corporativos exige uma análise mais rigorosa dos fundamentos de cada companhia. A volatilidade esperada com o calendário eleitoral também deve limitar a entrada de novos recursos estrangeiros no curto prazo.
Para o ecossistema de negócios, a manutenção de juros altos e o dólar em patamares elevados impõem restrições ao custo de capital, afetando diretamente os planos de expansão e alavancagem das empresas. A expectativa de que o real não retorne abaixo de R$ 4,80 até o final de 2026 reforça o entendimento de que a pressão inflacionária e os riscos externos permanecem estruturalmente presentes no radar do mercado.
O que observar nos próximos meses
A incerteza sobre a trajetória exata da Selic e a profundidade da volatilidade eleitoral deixam os investidores em compasso de espera. A capacidade do mercado brasileiro em absorver choques externos, especialmente vindos da política monetária americana, será o principal teste para a resiliência do Ibovespa no restante do ano.
Acompanhar os próximos comunicados do Copom e a sinalização das campanhas eleitorais será fundamental para entender se o pessimismo atual se consolidará como uma tendência de longo prazo ou se será revertido por eventuais surpresas na economia real. A dinâmica entre juros e resultados corporativos definirá o tom dos próximos trimestres.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





