Uma crescente tensão fiscal assola os Estados Unidos, opondo gerações em um embate sobre quem deve arcar com os custos de programas sociais e impostos. A disputa, que vai além de desentendimentos superficiais entre gerações, transforma o que antes eram mecanismos de apoio coletivo em um debate individualista com potenciais consequências econômicas duradouras. O cerne da discórdia reside na percepção de instabilidade econômica vivida por ambos os grupos, mas com dinâmicas distintas.
Para os baby boomers, a promessa de uma aposentadoria confortável, alicerçada na Previdência Social e em economias pessoais, tem se mostrado mais precária do que o esperado. Muitos enfrentam rendas de aposentadoria abaixo do ideal, com mais de 57% dos americanos com mais de 65 anos ganhando anualmente menos de US$ 40.000, segundo análise do Business Insider. A transição de um mercado de trabalho com aposentadorias corporativas para um modelo de poupança autodirigida não gerou os resultados esperados, e o aumento dos custos, incluindo impostos sobre propriedade, agrava a situação. A própria Previdência Social, vista como um pilar de segurança, enfrenta incertezas quanto à sua sustentabilidade a longo prazo sem intervenção legislativa.
O Fardo Crescente dos Jovens
Enquanto isso, as gerações mais jovens, incluindo millennials e a Geração Z, veem a promessa de estabilidade a longo prazo como algo distante. Apenas um quarto dos jovens entre 18 e 49 anos confia no futuro da Previdência Social, e uma parcela significativa acredita que o programa não estará disponível em dez anos. Muitos se deparam com um cenário de "apocalipse de carreira", com crescimento real de renda estagnado. A perspectiva de que a carga tributária para sustentar a rede de segurança social recai cada vez mais sobre eles, enquanto os benefícios parecem menos claros, gera um sentimento de injustiça. Taylor Scriber, um millennial do Texas, exemplifica essa frustração ao se deparar com a redução de impostos sobre propriedade para idosos e pessoas com deficiência, temendo que isso resulte em aumentos para futuros proprietários como ele. Em estados sem imposto de renda, como o Texas, impostos sobre propriedade e vendas são cruciais para o financiamento de serviços municipais, como escolas, e a diminuição da arrecadação de um grupo pode significar um ônus maior para outro.
Poder Político e Alívio Fiscal Seletivo
A raiz do conflito reside no desequilíbrio de poder político. Os boomers, que votam em taxas mais altas do que as gerações mais novas, exercem maior influência sobre os legisladores. Essa vantagem se traduz em políticas de "carve-out" (exceções) que beneficiam desproporcionalmente os mais velhos. Um exemplo é a proliferação de subsídios fiscais para idosos em estados com imposto de renda pessoal, muitas vezes mal direcionados, beneficiando idosos de alta renda em detrimento de trabalhadores mais jovens. A análise do Institute on Taxation and Economic Policy (ITEP) revela um aumento significativo de estados oferecendo créditos e isenções para pensões privadas, uma fonte de renda para idosos mais abastados, utilizando a "preocupação com idosos de baixa renda" como justificativa para cortes fiscais mais amplos.
Divisões na Previdência e o Padrão em "U"
As divergências se estendem a propostas futuras. Uma pesquisa do Cato Institute aponta que a maioria dos idosos (52%) apoia o aumento de impostos sobre a folha de pagamento da Previdência Social para manter os benefícios atuais, mesmo que os trabalhadores de hoje recebam menos do que pagaram. Em contraste, uma maioria de jovens (60% dos 18-29 anos e 66% dos 30-64 anos) se opõe a tal medida. Essa polarização reflete um dilema fundamental: quem deve arcar com o custo de manter os programas sociais? A dinâmica fiscal americana, descrita como um padrão em "U" pelo professor Gerald Prante, sugere que indivíduos recebem menos do governo do que pagam em impostos durante os anos de pico de renda, mas se beneficiam mais na infância e na velhice. Contudo, o cenário atual aponta para um prolongamento da permanência no "fundo" do "U", com dificuldades crescentes para acumular riqueza e benefícios para os mais velhos que não necessariamente precisam de ajuda genuína.
Perguntas em Aberto e Caminhos para a Harmonia
A situação é complexa, com nuances como a riqueza em papel de alguns boomers versus a falta de liquidez de seus ativos imobiliários, e o crescimento aparente da fortuna de alguns millennials. No entanto, a tendência de transferir o ônus fiscal para os mais jovens sem um debate honesto sobre sacrifícios mútuos pode agravar a divisão. Algumas vozes, como a de Allison Pickering, uma aposentada de 75 anos, rejeitam a dicotomia geracional, sugerindo soluções como a remoção do teto de impostos sobre a folha de pagamento da Previdência Social, que atualmente limita a contribuição a US$ 184.500. Outros defendem a desvinculação do imposto da idade, baseando-o na capacidade de pagamento, ou a implementação de medidas como "circuit breakers" para impostos de propriedade. A busca por harmonia geracional passa por encontrar um equilíbrio onde as necessidades de todos sejam consideradas, evitando que o fardo recaia desproporcionalmente sobre aqueles com menor capacidade de suportá-lo, sejam idosos ou jovens.
A escalada dessa guerra fiscal, sem intervenção política ou um reconhecimento das realidades atuais sobre quem paga o quê, tende a se tornar mais extrema. A tentação de soluções paliativas pode adiar o inevitável, transferindo o problema para as próximas gerações. A questão fundamental permanece: como garantir a sustentabilidade dos programas sociais sem exacerbar as tensões intergeracionais e criar um sistema mais equitativo para todos?
Source · Business Insider





